Por Aluísio Azevedo (1882)
Era um belo americano, rijo, atlético, ágil e robusto ao mesmo tempo. Olímpia, do lugar em que estava, via-lhe perfeitamente o azul dos olhos, a linha pura do perfil e a cintilação dos dentes.
Ele, depois de agradecer, estalou graciosamente os dedos e despediu-se, a dar cambalhotas no ar.
Rebentou de novo a tempestade das palmas, e as bocas dispararam uma sonora descarga de bravos.
Olímpia, entretanto, com a cabeça pendida para frente, olhar fito, a boca mal cerrada, caía na sua habitual tristeza e parecia a tudo indiferente.
Quando se retirava do teatro com o pai, um menino à saída apregoava a dez tostões, fotografias de Scott.
Ela comprou uma.
No dia seguinte, levantou-se muito tarde e de mau humor. Sua primeira frase, quando se encontrou com o pai, foi para lhe dizer que não ficava nem mais um dia na Avenida Estrela.
— Fizeram-te alguma coisa? perguntou o extremoso velho, esquecendo-se por um instante do prazer que lhe dava aquela resolução.
O comendador estava, como se costuma dizer, pelos cabelos, para deixar a casa do Papá Falconnet. Olímpia respondeu que não, com um gesto de cabeça, e acrescentou depois muito aborrecida:
— Estou farta de tudo isto! Preciso sair daqui quanto antes! — Como quiseres, minha filha!
E ficou resolvido que partiriam naquele mesmo dia. Às duas horas da tarde apareceu o Dr. Roberto; o comendador tomou-o de parte e relatou-lhe minuciosamente as caprichosas mudanças de humor que a filha experimentara desde a véspera.
O médico ficou pensativo depois de o ouvir.
— A que horas voltou ela do tal passeio? perguntou afinal.
— Às sete e meia da noite.
— Jantou logo que veio?...
— Logo, e com uma boa disposição que há muito tempo não tinha. Depois quis ir ao teatro, coisa de que ela não podia ouvir falar...
— A que teatro foram?
— Ao circo, ao Chiarini.
— Ah! resmungou o médico. Talvez ficasse nervosa à vista dos equilíbrios arriscados...
— Não sei... disse o pai; o fato é que ela estava ontem muito bem disposta e hoje, ao contrário, está impertinente como nunca!
E, depois de se conservarem ambos calados por algum tempo, o comendador acrescentou:
— Agora entendeu que não pode suportar mais esta casa e quer mudar-se hoje mesmo.
— E o comendador está resolvido a fazer a mudança?
— Pois não! já está tudo pronto. Partiremos daqui a pouco.
Olímpia apareceu já em trajos de sair. O Dr. Roberto foi pressurosamente ao seu encontro e perguntou-lhe pela saúde.
— Assim... respondeu ela sacudindo os ombros. Estou muito aborrecida.
— Tem tido dores de cabeça?...
— Um pouco, mas ontem passei muito melhor.
— Por que não dá de vez em quando um passeio como o de ontem? Eles lhe são de grande utilidade!...
— Talvez não seja tanto assim...
— Voltou muito fatigada?
— Muito menos do que supunha. Quando cheguei à gruta, sim, estava tão prostrada, que me parecia impossível voltar a casa.
— Veio depois a reação?
— É verdade, e fiquei então muito bem disposta.
— Foi em companhia de muita gente?
— A princípio, respondeu Olímpia, impacientando-se com as perguntas insistentes do médico; depois ficamos três, apenas.
E, como se quisesse fugir daquela conversa, saltou logo para outros assuntos muito diversos, e afinal pediu licença e afastou-se quase com arremesso. O médico a viu ir, pensativo.
— É esquisito! disse ele consigo, e passou a prestar atenção ao Papá Falconnet, que ao seu lado lhe fazia rasgados cumprimentos em francês. O hoteleiro precisava que o doutor fizesse uma visita a um de seus locatários que amanhecera doente.
Tratava-se de Gregório. O médico foi conduzido ao quarto deste. Entrou quase às apalpadelas, porque vinha da grande claridade de fora. Só ao fim de algum tempo começou a distinguir o que tinha defronte dos olhos. Papá Falconnet o acompanhava, sempre a desfazer-se em cortesias e palavras agradáveis.
— Abra um pouco aquela janela, recomendou-lhe o médico.
Falconnet correu a cumprir a ordem.
Gregório estava assentado na cama, com os travesseiros entalados nas costas. Tinha o ar muito abatido e preocupado.
— Quem é? perguntou ele, ao sentir os passos do médico.
— É o doutor, respondeu Falconnet, entrando. Veio ver D. Olímpia e aproveitou a ocasião para fazer-lhe uma visita.
— Que tem ela? interrogou o rapaz.
— Está, como sempre, sofrendo dos nervos, explicou o Dr. Roberto.
— Mas não tem alguma novidade?
— Não, disse o médico sacudindo os ombros.
E, assentando-se à cabeceira do doente, indagou do que este sofria.
— Indisposição de corpo, respondeu Gregório. Nem valia a pena o incômodo de vir cá. Afinal não estou doente...
O Falconnet havia se aproximado e explicava que aquilo devia ser da soalheira apanhada na véspera.
— Ah! o Sr. foi ao tal passeio da gruta? perguntou-lhe o médico. — É verdade, respondeu o enfermo.
O Falconnet principiou então a narrar o que a respeito do passeio ouvira na véspera contado por Olímpia.
— A ela entretanto fez bem!... considerou o Dr. Roberto, tomando o pulso de Gregório. E depois de examiná-lo, receitou e prometeu voltar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.