Por Aluísio Azevedo (1884)
— Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. — Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é só ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!
— Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.
CAPÍTULO XXIII
PAQUETÁ
Borges não descansou mais um instante, sem ter arranjado o necessário para abandonar a cidade.
Obteve uma casa em Paquetá; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da mulher, pois que esta se obstinava a guardar silêncio, e não se pronunciava por coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.
— Faze o que entenderes..— respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres será bem feito. Tudo me agradará.
— Mas não fiques desse modo!... pedia o esposo afagando-a.
Ela sorria tristemente e não dava mais palavra.
Partiram na manhã seguinte para Paquetá.
Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava às carícias da luz; um panorama radiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre grandes almofadas.
Os horizontes iam fugindo e azulando; as águas da baía estendiam-se a perder de vista, refletindo nas suas lâminas de prata as pequenas ilhas verdejantes que surgiam de todos os lados. E a serra dos órgãos aparecia ao longe, apunhalando o céu com as suas pontas cor de aço, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe aos pés, formando grupos de nuvens paralisadas.
Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que dantes a arrebatavam.
Embalde o marido fazia por chamá-la às antigas impressões; embalde procurava despertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: — Filomena, muito abatida, os olhos mortos, as mãos esquecidas sobre o regaço, queixava-se ficar no seu entorpecimento doentio.
Já não era a mesma Filomena de dois meses atrás. Seu sorriso agora era triste e cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabeça de uma rola, caía-lhe sobre o peito em uma prostração de luto e viuvez.
O resto da viagem correu fúnebre.
Ao chegarem à casa, Filomena não se mostrou interessada por coisa alguma; entrava ali como se entrasse para um hospital; a criada, que encontrou às suas ordens, pareceu-lhe uma irmã de caridade. Em vão o marido pedia a sua opinião sobre o que tinha preparado para recebê-la ou sobre a beleza natural do lugar, a esplêndida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.
Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; o Urso em vão lhe farejava os pés, à espera de uma carícia.
Veio o almoço. Borges, para chamar a mulher ao bom humor, lembrava tudo que lhe parecia ter graça: e inventava anedotas, recorria a todos os meios de distraíla, fazendo-se pilhérico, fingindo-se alegre, procurando reconstruir as mesmas fisionomias, os mesmos movimentos ridículos, com os quais ele, dantes, sem querer, fazia-a rebentar de riso. — Engasgava-se com o vinho, tossia, fingia-se parvo, imbecilizava-se propositadamente.
Mas tudo era baldado. E o infeliz, sentindo acudirem-lhe as lágrimas, fugia, abafando os soluços com as mãos, para que a mulher os não percebesse.
E no entanto, a melancolia de Filomena avultava de instante a instante, como uma nuvem que se espalha no céu. E tudo se foi tornando sombrio, carregado, trevoso, até que a última réstia de azul desapareceu totalmente.
Então, a. enferma deixou-se ficar de cama, sem querer ouvir falar de coisa alguma desta vida, nem querer suportar outra companhia que não fosse a do marido.
Ele, só andava na ponta dos pés, só falando em segredo, tresnoitado, aflito, como louco, servindo a um tempo de enfermeiro e de criado. Não queria que ninguém se aproximasse do quarto da mulher, com receio de incomodá-la. Ela não podia ouvir a menor bulha; o mais leve som de passos eqüivalia marteladas na cabeça.
E o Borges, em meias, com pisadas de ladrão, o ar sobressaltado, não ficava quieto num lugar, andava por toda a casa, evitando o que pudesse contrariar a doente. E quando se punha ao lado dela, seguia-lhe os movimentos da pálida fisionomia, como um cão ao lado do senhor, pronto a lançar-se de carreira para a direita ou para a esquerda, conforme o decrete o olhar do dono.
— Ó minha Filomena! minha querida companheira, dizia em segredo, sem poder distrair as lágrimas que lhe transbordavam dos olhos. — Que tens?... que sentes... Que te falta? Dize! fala, minha vida! Pode ser que isso te faça bem!... Desabafa, ordena — eu sou o teu escravo, estou aqui para te obedecer! Vamos, por quem és! dize o que queres!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.