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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

É verdade; mas permitta-me que lhe faça uma pequena pergunta. O senhor que teve a fortuna de conhecer Rozaura primeiro que eu, que sou pae delia, e que talvez teve com ella entretenimentos particulares, diga-me francamente, meu amigo, até que ponto chegárão as suas relações?

Carlos ficou por algum tempo perplexo e desapontado com estas perguntas de Conrado. Foi só então que comprohendeo a que alvo atiravüo as palavras um pouco vagas e ambiguas do pae de Rozaura. Logo vio que elle já suspeitava, si é que não estava certo, da natureza de seus sentimentos para com a gentil menina.

— Já sabe que a amo, — pensou comsigo, — é mistér fallar-lhe com toda a franqueza, revelar—lhe tudo.

Carlos então reanimando-se e cheio de confiança começou a contar como tinha conhecido Rozaura, e como tinha concebido por ella a mais ardente e viva paixão. O profundo desgosto que se apoderou de seu coração ao saber que Rozaura era captiva, os projectos loucos, que concebeo para restituil-a á liber- dade, as angustias por que passou, o profundo desalento em que cahio quando Rozaura desappareceo, constando com todos os caracteres da certeza, que tinha sido levada no comboi por seu senhor para ser vendida em longes terras, nada disso lhe occultou.

Tambem lhe disse que o desespero e dÔr, que soffreo com este ultimo golpe, tinha affectado profundamente a sua saude fazendo-o definhar rapidamente, e talvez o tivesse levado ao tumulo, si a mais feliz eventualidade não lhe tivesse feito deparar livre e feliz, e na mais brilhante posição social, aquella que elle suppunha ainda na triste condição de escrava, exilada de sua terra, arrancada ás suas affeições, palmilhando a pé essas escabrosas estradas para ser vendida...

Aqui a voz dc Carlos embargou-se pela emoção... não poude mais continuar.

Conrado sentia tambem de sua parte emoção extraordinaria.

Carlos fallava com tal anirnação, e com tal tom de franqueza e sinceridade, que Conrado não poude deixar de dar pleno credito ás suas palavras.

— Emfim, meu amigo, — concluio elle ; conheci sua filha suppondo-a livre, porém pobre ; amei-a com todas as forças de minha alma.

Vim depois ao conhecimento de que era escrava, e nem assim deixei de adoral-a com o mesmo affecto puro e respeitoso, que sempre lhe havia consagrado. Por duas vezes mc achei junto della, e a mais audaciosa homena o»em que meu amor ousou render-lhe, foi beijar-lhe a mão uma ou outra vez. Ilojc, que a vejo livre, rica, feliz e restituida a um tão bom pae, o meu amor é o mesmo, minha esperança porém é muito fraca ; bem vejo que a não mereço, e serei o ultimo entre tantos e tão brilhantes competidores, que sem duvida se apresentarão aspirando á sua mão.

Carlos pronunciou estas ultimas palavras com tal bom de tristeza e desalento, que Conrado commovido deo-se pressa em manifestar- lhe suas verdadeiras intenções.

— Tranquillise-se, meu caro Carlos, disse-lhe com benevolo sorriso, não tem por ora nem rival, nem concurrente algum, e mesmo que os tivesse, o preferido seria sempre o senhor, não só por minha parte como tambem por ella. Melhor do que ninguem o senhor deve saber, si ella corresponde ou não ao seu amor. Desde hontem que os estou observando e estudando a ambos, e agora, em vista das revelações tão explicitas e sinceras, que acaba de fazer- me, era preciso que eu fosse bem destituido de penetração para não comprehender que se amão mutuamente.

A estas palavras o estudante deslumbrado pelos fulgores da mais risonha esperança e mergulhado em effluvios de beatitude esteve a ponto de arrojar-se aos pés de Conrado e beijar-lhe as mãos; mas a propria violencia de sua emoção o acanhava, e naquelles momentos, não sabendo o que devia dizer ou fazer, quedou-se por algum tempo silencioso, de olhos cravados no chão, e o peito a offegar.

— O senhor me faz o mais ditoso dos homens, — murmurou emfim ; — não sei como testemunhar-lhe o meu reconhecimento...

— Nada tem que agradecer- me, — atalhou Conrado ; —concedendo-lhe a mão de Rozaura não faço mais que dar cumprimento a um enlace que o destino tinha preparado de antemão, e ainda mais uma vez não posso deixar de dar graças á Providencia, que, restituindome a filha, depara-me ao mesmo tempo para ella um esposo tão digno de minha escolha. Não serei eu que vá romper violentamente laços tão sanctos e puros, que a natureza formou, e que o céo deve abençoar. Como ha pouco lhe contei, muito soffri na minha mocidade em razão de ser contrariado em meus affectos, e a opposição caprichosa de um pae pouco insensato nos tornou para sempre infelizes a mim e á mãe de Rozaura. Eu seria peor mil vezes do que esse pae, si, tendo passado por tão cruel e dolorosa provação, quizesse condemnar á mesma sorte a filha que o céo preservou-me por meios tão extraordinarios.

(continua...)

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