Por Franklin Távora (1878)
Tinham eles dado com o deposito dos vinhos – a rica adega do fidalgo – e já se entregavam aos deliciosos espíritos, quando, trêmulos e aterrados, entraram correndo alguns dos espias que, por ordem do Tunda-Cumbe, estavam vigiando nos cantos mais importantes do cercado.
- Fujamos, fujamos, que ai vem uma grande força.
- Bem se dizia que ela havia de vir – disse Pedro de Lima.
- Vamos a seu encontro – gritou Gonçalo Ferreira.
- Não, não – replicou Pedro de Lima. ganhemos o mato sem demora. Quando tiver passado, iremoa atrás dela, que ficará entre dois fogos – o nosso, pela retaguarda, e o de Luiz Soares pela vanguarda. Luiz Soares a esta hora, se entrou pelo Tanquinho, já deve estar senhor da vila. Faremos a junção e queimaremos os pés-rapados um por um.
- Está dito.
‘Sair’ foi o grito que irrompeu de todos os peitos.
Ao grito seguiu-se o exemplo.
A força, como o leitor já deve ter compreendido, era a que Gil Ribeiro comandava.
Vendo da estrada abertas as portas e janelas do sobrado, espalhados pelo pátio os moveis, alguns dos quais, formando pequenos adjuntos, eram nesse momento presa das chamas, não pode Francisco acabar consigo que não fosse de perto verificar este lastimoso espetáculo.
Quando esbarrou na frente da casa e reconheceu a terrível verdade, uma idéia lhe atravessou o cérebro, iluminando-o como relâmpago. Esta idéia lhe dizia que a sua casa tinha sido abandonada por Lourenço e Marcelina, como o engenho lhe pareceu que o fora por João da Cunha.
- Eles não morreram. Estão todos no sobrado. Oh meu Deus! Permiti que assim seja.
Estas palavras consoladoras, que lhe saíram irresistivelmente dos lábios, foram como as primeiras manifestações de nova alma que lhe entrara no cérebro. Voltou imediatamente à estrada e se incorporou outra vez na tropa que já corria a marche-marche para a vila, por ordem de Gil.
Pedro de Lima não se enganava. Desde o amanhecer achava-se Luiz Soares com suas forças em Goiana e dava ai que fazer à nobreza.
Nesta vila lavrava a anarquia, ora mais, ora menos, extensamente desde 3 de julho, data do primeiro motim. Não menos de oito foram eles, numero que se elevará a muito mais, se aos movimentos das ruas, em certo modo organizados, juntarmos as disputas particulares, os desforços pessoais, as afrontas e os desagravos feitos em publico, enfim todos os conflitos naturais de duas forças políticas que se hostilizam a todo o transe no pressuposto de aniquilarse mutuamente.
Além destas circunstancias comuns a todas as guerras civis, uma circunstancia especial tornava mais perigosas e freqüentes as agressões e as represálias em Goiana – a de serem os goianistas ardentes assim nas lutas da razão, como nas do sentimento.
De data imemorial é a terra de Nunes Machado, de Arruda Câmara e de tantos outros vultos eminentes, foco de faculdades viris fácil de acender-se, difícil de apagar-se. Filha legitima do Recife – vasto laboratório, em que fermentam as paixões populares sem intermitência, ainda que fria serenidade pareça algumas vezes indicar enfraquecimento ou sono da grande alma pernambucana que tem ai a sua sede, Goiana sempre representou conspícuo papel nas agitações da província.
Conhecedores da influencia, não só comercial, mas também política da vila, puseram os mascates particular empenho em tê-la de seu lado; e neste pressuposto fizeram dela sua segunda praça forte, ou o principal ponto dos seus recursos e forças, depois da capital.
Logo que no Recife se fez sentir a falta de viveres, foi de Goiana que trataram de os enviar para os sitiados. Um óbice porém apresentou-se imediatamente, o qual muito deu que pensar aos insurgentes – a rixa em que estavam com os habitantes de Goiana, os da Ilha, rixa que tem sua natural explicação, que é a seguinte:
De Itamaracá sede de uma capitania independente de Pernambuco, por doação que a Pero Lopes de Souza fizera por carta de 1º de setembro de 1534 d. João III, fora mudada a câmara para Goiana em 1685. Despeitados, começaram desde então os moradores de Itamaracá a ter para os de Goiana o sobr’olho carregado, e não perdiam ocasião de lhes dar mostras do seu desagrado. Altos empenhos a favor da ilha, se não foram falsas informações movidas secretamente contra a vila, deram lugar a expedir-se em data de 20 de novembro de 1709 ordem regia, determinando voltasse para aquela a câmara que de lá saíra. Este ato veio converter em novos ódios ressentimentos antigos. Por isso não foi preciso, para que os da ilha tomassem o lado do governo, isto é, o da nobreza, mais do que saberem que Goiana se amotinara contra ele. Não podendo porém a primeira competir com a segunda, e havendo até suspeitas de que, para impedirem que fossem tomadas pelas autoridades da ilha os gêneros remetidos pelos mascates para o Recife, tentavam estes apossar-se dela, encarregaram os governadores militares o ajudante-de-tenente Gil Ribeiro de ocupar o Forte-deOrange. O ajudante ai esteve até que partiu, por nova ordem, para Goiana, segundo vimos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.