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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

No dia da festa de S. Antônio, do ano seguinte, o constante devoto vinha subindo a ladeira do convento um pouco admirado de não lhe terem sido pedidas as suas jarras, como nos anos anteriores.

– Desconfiariam os frades da minha boa vontade? – perguntava ele a si mesmo. Já teriam comprado jarras tão bonitas como as minhas?

Assim refletindo, chegou o devoto ao adro e entrou na igreja, e depois de fazer a sua oração, adiantou-se para a Capela-Mor, pôs os olhos no altar e recuou dois passos, exclamando:

– As minhas jarras!

Tornou a olhar, aproximou-se mais do altar, observou com todo o cuidado e repetiu:

– São as minhas jarras!

Mas o devoto tinha a certeza de não as haver emprestado, e confundido, portanto, com o que via, saiu da igreja, correu a casa, foi direito a um armário onde guardava as suas jarras e viu-as, com espanto, no seu lugar.

Voltou ao convento imediatamente, tornou a entrar na igreja e a olhar para o altar-mor.

– Mas, por fim de contas, são as minhas jarras – disse ele.

Acabada a festa, dirigiu-se o devoto ao sacristão e pediu-lhe encarecidamente que lhe explicasse aquele mistério.

O sacristão, sorrindo, foi tirar as jarras do altar e veio apresentá-las ao devoto.

– Bem vê que não são as mesmas – disse.

– Como? São as minhas – exclamou o devoto.

– Nesse caso, aí as tem. Tome conta delas.

O devoto, a esforços do sacristão, recebeu as jarras, e ficou ainda mais admirado.

– Então?

– Não são as minhas – disse, entregando outra vez as jarras.Não são. Mas a única diferença é que as minhas são de porcelana, e estas são de pau.

– Há ainda outra diferença – observou o sacristão.

– Qual?

– É que as suas vieram da Índia, e estas foram feitas aqui noconvento por frei Francisco Solano.

Este ligeiro episódio das jarras de pau, aliás, absolutamente verdadeiro, impõe-me a obrigação de dizer duas palavras sobre o frade artista que as fez.

Frei Francisco Solano era um homem de grande habilidade, e no convento se tornou notável por diversos espaldares e quadros de santos que executou e que ainda existem.

Não era, nem podia ser um grande mestre. Nunca saiu do Brasil, não teve a educação artística das academias, nem a freqüência de pintores abalizados. Nos seus quadros adivinha-se e saúda-se o gênio.

Notam-se, porém, ao mesmo tempo, os senões devidos à falta de escola, aprecia-se a beleza do colorido; às vezes, porém, repara-se em alguma desproporção das formas das suas figuras. Entretanto, é impossível deixar de reconhecer talento e inspiração nas obras da sua paleta.

Há ainda outra razão para não se deixar no esquecimento o nome de frei Francisco Solano.

Quando, no fim do século passado, outro franciscano, o célebre frei José Mariano da Conceição Veloso, se ocupava da sua importantíssima Flora Brasileira, trabalho imenso que perpetuará o nome desse nosso compatriota, foi reconhecida a necessidade de dar um ajudante ao notável botânico.

O padre-mestre frei Veloso não sabia desenhar, e não podia prescindir do desenho na sua obra. Pediu, pois, que lhe fosse dado um ajudante desenhador, e por proposta sua, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa escolheu frei Francisco Solano para desempenhar esse mister.

Frei Solano tornou-se então o companheiro inseparável de frei Veloso. Seguiu-o em suas excursões pelo interior e pelas florestas, tomou parte em suas laboriosas vigílias de gabinete, e são, enfim, dele, todos os desenhos de plantas que se encontram na Flora Brasileira.

Frei Francisco Solano ocupou os maiores cargos da sua ordem, chegando a ser ministro provincial em 1814, e tendo então por secretário, durante o triênio, o ilustre frei Sampaio.

É bom que as nossas vilas e povoações do interior vão brilhando com o reflexo do esplendor de seus filhos, e portanto, marcarei o berço desse franciscano.

Frei Francisco Solano foi natural da vila de S. Antônio de Sá, e filho legítimo de Jorge Antônio da Costa Mendonça, natural da freguesia de S. João de Itaboraí.

Acabamos de estudar a igreja e sacristia dos frades franciscanos. Cumpre que passemos agora ao convento.

Não será, porém, acertado deixarmos o convento para outro passeio?

Descansemos um pouco. Vamos respirar as suaves brisas da tarde neste aprazível e excelente adro, e depois iremos bater à porta do mosteiro.

II

Com toda a sua pobreza franciscana, os frades capuchinhos conseguiram levantar o mais espaçoso e o melhor dos mosteiros que existem na cidade do Rio de Janeiro, e tiveram a habilidade de levar ao cabo em poucos anos essa grande obra, sem que ficassem as caudas dos seus hábitos presas aos livros do há de haver dos credores, como acontece a tantos pobres que, ambicionando vaidosos as glórias dos proprietários, fazem construir elegantes casas que chamam suas, mas de que pagam um aluguel pavoroso nos tanto por cento de juros que de quatro em quatro meses vão levar aos escritórios dos verdadeiros donos das suas propriedades.

(continua...)

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