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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Fábio era o único amigo que não tinha desamparado a triste moça; era o companheiro unico que vinha diariamente tomar uma parte naquelle viver de lagrimas, que estavão passando Cândida e Juliana

Fábio era mais do que um mancebo generoso e nobre, era o typo do amigo dedicado ; tinha um coração cheio dessas grandes virtudes que tornão o homem capaz dos maiores sacrificios ou da abnegação mais completa.

E naquellás circumstancias ella não esquecia que o pai de Juliana fôra o seu protector desvelado, que em Cândida achara uma segunda mãi, que Juliana era a sua amiga da infancia.

E ainda mais: Fábio tinha amado extremosaamente Juliana.

O que se passava na alma desse mancebo, ninguém o poderia explicar : era uma lucta horrivel, e um soffrimento que excedia as mais despedaçadoras torturas.

Fábio fingia duvidar do opprobrio de Juliana ; mais acreditava nelle : comprehendia que a situação era intoleravel, e não se podia sujeitar á idéa de ver morrer Juliana, nem de vêl-a carregar o peso de uma vida ignominiosa.

Uma noite, Fábio chegou á casa de Cândida quando já não o esperavão.

Erão 10 horas da noite.

Cândida estava só na sala, e nem procurou esconder as lagrimas que derramava, quando vio aproximar-se omancebo.

— Onde está Juliana?... perguntou elle.

— Está no terraço e pedio-me que a deixas-sa em liberdade.

— Como passou ella o dia ?...

— Peior do que nunca ! exclamou a pobre mãi! Fábio !... aquelle homem matou minha filha; nós vamos perder Juliana !...

— O amor maternal ás vezes exaggera os perigos que receia.

— Oh ! não ! é a pura verdade: esta noite, e já muito tarde, fui observar Juliana... ella tinha adormecido, escrevendo... cheguei-me de manso e li... Ah! tinha escripto a historia dos seus soffrimentos do dia que passara, e as suas ultimas idéas erão uma horrivel saudação ao suicidio !... cahi de joelhos, soltei um grito, accordei-a, e pedi-lhe chorando que vivesse para mim!...

— E ella ?...

— Perguntou-me de que me servia a sua vida!... Oh ! Fábio ! uma filha pôde fazer tal pergunta á sua mãi ?...

— E depois?...

— Acabou promettendo me que não se ma-

taria; mas disse-me isso sorrindo, com um desses sorrisos que só se vêm nos lábios de um louco ! Ah ! ella vai morrer, Fábio ! aquelle homem matou minha filha!

— Aquelle homem casou-se hoje, balbuciou Fábio.

— E hoje ella está pensando em matar-se ! repetio Cândida soluçando.

Fábio passeou ao longo da sala durante meia hora, parecendo engolphado em profunda e dolorosa meditação ; parou emfim de subito ouvindo um longo gemido, que fizera estremecer a afflicta mãi.

— Que é isto ?...

— Um gemido de Juliana ! exclamou Cândida desatando a chorar; é minha filha que vai morrer... aquelle homem matou minha filha!

— Juliana não ha de morrer, disse Fábio : eu vou fallar-lhe... não me acompanhe : quero conversar a sós com ella.

E com ar grave e solemne, Fábio dirigio-se para o terraço.

XXIX.

A noite era formosa ; a lua plena e formosa brilhava no céo branco e bonançoso ; as auras sopravão brandas e suaves : o jardim era como um thuribulo immenso que enchia de deleitosos perfumes o templo da natureza.

Era pois uma noite como aquella noite de loucura, embriaguez e de conseqüente arrependimento.

E vestida de branco, também como naquella noite, mas com os seus admiraveis cabellos negros soltos e em desalinho, Juliana estava debruçada sobre o parapeito do terraço e mar com as suas lagrimas a lembraça do seu grande erro e do seu cruel infortunio.

Seus olhos estavão fitos no caramanchão, que divisava ao longe, e que por entre o pranto consideravão com uma expressão indeflnivel de angustia.

Dir-se-hia que Juliana era então como a alma de um suppliciado que em deshoras vinha contemplar o patibulo, onde ao golpe do algoz se separara do corpo que animara.

Naquelle logar e naquella hora, como devião ser tormentosas as reflexões da pobre moça !...

Ella chorava sempre, e se durante breves momentos não chorava, succedia nos seus olhos ás lagrimas um brilho infernal, que era o reflexo de um pensamento sinistro e criminoso.

A moça vaidosa revoltava-se contra a sua desgraça, e não queria por modo algum sujeitarse a ella.

E o recurso único que lhe suggeria o espirito exaltado, era horrivel.

Juliana estancava o pranto somente quando sorria para a morte.

A idéa do suicídio preoccupava-a desde alguns dias, e se a principio a fizera estremecer, acabara bem depressa por não aterral-a mais.

Juliana chegara ás consequencias fataes da sua infeliz educação.

Acreditara no mundo, contara com os gozos da vida transitória ; o bello mundo trancá-ra-lhe as suas portas, a vida não lhe offerecia mais do que um futuro negro, feio e afflictivo.

Para Juliana, viver era gozar : de que lhe servia pois uma vida em pranto, em soffrimentos e torturas ?

A sepultura era pelo menos um descanço.

Além da sepultura nada mais havia para ella.

Tinhão-lhe ensinado que a eternidade era uma illusão.

Juliana sabia demais que o arrependimento não podia regeneral-a diante de Deus.

(continua...)

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