Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Eis o que você queria, Lísia, era fazer desconfiar de Fernando. Quer saber se eu o comprei, e por que preço? Não faço mistério disso; comprei-o, e muito caro; custou-me mais, muito mais de um milhão; e paguei-o, não em ouro, mas em outra moeda de maior valia. Custou-me o coração; por isso já não o tenho! 

Estas palavras e a expressão que palpitava nelas convenceram a todos que Aurélia estivera efetivamente a gracejar acerca de seu casamento. A resposta à Lísia não fora senão um disfarce para provocar aquela confissão inconveniente da paixão com que se estremeciam ela e o marido. 

Assim, quando retiraram-se as visitas, o tema da conversa foi o desfrute dos dois noivos, que depois de um mês de  casados andavam pela rua requebrando-se como dois pombinhos namorados. Lísia asseverava ter visto Aurélia de tal modo enleada ao braço do marido, que este não podia andar. 

Entretanto rodava o carro pelo Catete, e Aurélia balançando-se ao brando movimento das almofadas, parecia ter completamente esquecido Seixas sentado a seu lado, quando este dirigiu-lhe a palavra. 

- Desde que estamos casados, uma só vez não inquiri de suas intenções. Respeito-as, como é meu dever, e conformo-me com elas quanto posso, por mais estranhas que pareçam. Mas para satisfazer suas vontades é preciso pelo menos conhecê-las, embora não as compreenda. 

Aurélia voltara o rosto para o marido. Como já não receava ser vista por causa do lusco-fusco, deixou que seu semblante tomasse a expressão de soberba desdenhosa, que o vestia nesses momentos de surda irritação. 

- Que pretende com este prólogo? 

- A princípio quis-me parecer que desejava ocultar dos estranhos a realidade de nossa posição. Confesso que nunca pude atinar com o motivo dessa singularidade. Criar deliberadamente uma situação, para ter o gosto de negar a todo instante... 

- É absurdo?... Não é?... Também me parece a mim. 

- Não perscruto seu pensamento. A senhora devia ter uma razão, que ignoro. 

- Como eu. 

- Importa-me, porém, saber se mudou de propósito como indica a cena que acaba de representar, e se resolveu dora em diante fazer escândalo, do que ontem fazia mistério.

- E para que deseja saber isso? 

- Já o disse, para conformar-me à sua vontade e afinar-me pela mesma clave. O dueto será mais aplaudido. 

- Não duvido; mas eu é que não me casei para fazer de minha vida uma solfa de música. Serei leviana e inconseqüente; terei estes defeitos; mas o que não tenho, pode estar certo, é o talento do cálculo. Deixe-me com o meu gênio excêntrico. Agora, neste momento sei eu porventura, o que farei esta noite? Que extravagância me virá tentar? Como depois havia de formular um programa conjugal para nosso uso? Eu posso fazer de nossa união um mistério ou um escândalo, conforme o capricho. O senhor é que não tem esse direito. 

- Tanto como a senhora! 

Aurélia contestou com fria impassibilidade: 

- Engana-se. O sr. Seixas não pode desacreditar meu marido e expô-lo à irrisão pública. 

- Mas a mulher do infeliz pode; tem esse direito. 

- O senhor deu-lhe. 

- Não; use outro termo: Vendi-lho! 

Aurélia não respondeu. Derreando o corpo nas almofadas, e voltando o rosto para ver o recorte das árvores e chácaras na tela iluminada do ocaso, deixou cair a conversa. 

Ainda fizeram algumas visitas. Eram mais de oito horas quando parou o carro à porta de casa. D. Firmina tinha saído. .Aurélia queixou-se de fadiga, cortejou o marido e recolheu-se. 

Em seu quarto lembrou-se Seixas de algumas palavras que haviam escapado a Aurélia na conversação da tarde. – Sei eu acaso o que farei esta noite? Que extravagância me virá tentar? disseram a mulher; e ele sabia, que valor tinham em seus lábios essas frases enigmáticas. 

Desde a noite de luar e os devaneios poéticos sobre Byron era que Aurélia  mostrava uma irritabilidade contínua. Qual devia ser a resolução inspirada por essa febre de sua alma, já tão propensa aos caprichos e excentricidades? 

Esteve Seixas cogitando um momento sobre este ponto a fazer conjecturas. Fatigouse, porém, da tarefa, e abandonou-a, pensando que não havia piores na posição intolerável em que se achava. 

Já não pensava naquilo, quando súbito atravessou-lhe o espírito uma idéia que o fez estremecer. 

Um impulso de curiosidade o dominou. Correu à porta que separava da câmara nupcial e dos aposentos da mulher. Ergueu a mão para bater; começou o nome de Aurélia; mas não se animou a realizar o primeiro intento. Aplicou o ouvido a escutar. Reinava naquela parte da casa o mais profundo silêncio. Que fazer? 

Agitado pela idéia terrível que o assaltava, deu a esmo algumas voltas pelo aposento, numa perplexidade cruel. Seu olhar que não deixava a porta, notou um esguicho de luz no fundo do corredor escuro, e conheceu que saía pela greta da fechadura. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6162636465...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →