Por José de Alencar (1875)
Em D. Flor e sua mãe repercutiam as emoções do0capitão-mór, com quem essas duas almas se identificavam sempre, sobretudo nos impulsos generosos. Alina estremecia de susto e comunicava seus terrores ao Padre Teles, que não a ouvia. Quanto a Ourém e João Correia, assistiam consigo se o rapaz não estaria em algum acesso de loucura furiosa.
Que fazia então o capitão Marcos Fragoso? Tinham-no visto pouco antes correndo com Arnaldo atrás do barbatão; logo depois desaparecera; e ninguém nesse momento deu por sua falta.
Havia à beira da várzea e já no tabuleiro, um alto e esgalhado barbatimão que estendia rasteiros os grossos ramos encarquilhados, formando uma sebe viva. O Dourado vivamente acossado, meteu-se naquele embastido e o atravessou agachado; contava êle que o vaqueiro esbarrando com tapume, e não achando passagem, o rodeasse perdendo assim muito terreno.
Enganou-se porém. O Corisco, intrépido campeão, e sabedor de todas as manhas do gado mocambeiro, furou a ramada sem hesitar, guiado pela experiência, de que onde passava o corpo mais grosso do boi, devia passar êle e seu cavaleiro.
Na disparada em que ia, Arnaldo viu os galhos rasteiros da árvore, prolongados horizontalmente na altura do peito do cardão. Êste coleou-se como uma serpente e resvalou quase de rastos. O sertanejo, porém, já não tinha tempo de estender-se ao comprido e coser-se ao flanco do animal. Então de um salto galgou o ramo, e uma braça além foi cair na sela, para de novo pular segundo e terceiro ramo, que sucediam-se ao primeiro.
De longe e especialmente do lugar onde estava o capitão-mór, o que se viu foi o cavalo submergir-se na folhagem e o cavaleiro, desprendendo-se da sela, voar por cima daquele monte de ramas, para reunirem-se afinal e prosseguirem na desfilada.
A voz do Campelo retumbou pelo espaço:
— Bravo, Arnaldo!
Daniel Ferro eletrizado pela proeza, começou a cantar como um possesso a quadra do Rabicho da Geralda, que celebra um passo:
Tinha adiante um pau caído
Na descida de um riacho;
O cabra saltou por cima,
O ruço passou por baixo.
Os ecos da cantiga chegaram a Arnaldo, que achou graça na lembrança do Ferro, e também por sua vez repetiu o palavreado do Inácio Gomes, quando corria atrás do Rabicho:
Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memória;
Quando eu vim de minha terra
Não foi p’ra contar história.
Pelo caso do barbatinão acabara o Dourado de conhecer que vaqueiro tinha êle à cola; e entendendo que o negócio era sério, tratou de pôr-se no seguro.
Endireitou então para uma ponta da várzea, em que a corrente das águas tinha desde eras remotas cavado um profundo barranco, por onde no tempo das chuvas torrenciais, borbotavam para o rio. Uma vegetação exuberante nutrida pelo humo que a enxurrada alí depositava, cobria êsse tremedal de sarmentos viçosos e lindos festões de flores.
Estendido sôbre essa cúpula de verdura, um grosso tejú-assú aquecia-se ainda sonolento aos raios do sol matutino, e abria os olhos preguiçosos para ver a causa do alvorôço que ia pela várzea naquela manhã.
A gente do José Bernardo não julgara necessário guardar êsse ponto, que estava já de si defendido pelo desfiladeiro onde nunca pensaram que o boi se arriscasse por mais afoito que fosse. Ainda não conheciam o Dourado.
Os olhares que seguiam com atenção essa corrida cheia de peripécias, tiveram um deslumbramento. O boi primeiro, depois o cavalo com o vaqueiro, submergiram-se de repente naquele espêsso balseiro. Retroou um grande baque. Todo êsse turbilhão de homem e animais acabava de despenhar-se do barranco abaixo.
Houve um instante de ansiedade. Aqueles ânimos acostumados a essas correrias temerárias e curtidos para todos os perigos, sentiram uma vaga inquietação. Estaria Arnaldo naquele instante dilacerado pelos estrepes sôbre que talvez o arremessara a queda desastrada?
Ouviu-se o grito de terror, que soltara Alina, e a exclamação das senhoras. D. Genoveva dissera:
— Meu Deus!
Flor invocara a intercessão daquele que para ela tudo podia na terra.
— Meu pai!
O capitão-mór, escutando de longe a voz da filha, voltou-se para dirigir-lhe um gesto tranquilizador.
Do lugar onde estava com os outros companheiros, viram-se além, na estreita nesga de campo que ficava depois do despenhadeiro, passar umas sombras que sumiram-se na mata. E agora ouvia-se um estrépito bem conhecido dos sertanejos; era como uma descarga de fuzilaria que reboava na floresta. O estalar dos ramos despedaçados pela corrida veloz de um animal possante, como o boi, o cavalo, a anta e o veado, produz essa ilusão, que aumenta com a repercussão profunda e sonora da espessura.
O capitão-mór reconheceu que o Dourado corria na mata; e a velocidade de sua fuga indicava muito claramente que ia perseguido. Portanto nada acontecera ao intrépido vaqueiro; pois êle acossava o boi com o mesmo ardor, e já lhe estava no encalço, como se calculava pelo breve espaço que mediava entre uma e outra crepitação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.