Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Ao contrário, senhora, fez bem em dar apressada um copo d’água ao homem morto de sede; tanto mais que o meu juízo parou aí... não pensei mais nada...
– Fala seriamente? não procurou conhecer esse homem que podia tanto em mim, nem descobrir a causa de sua admirável influência?...
– Não passei além do que disse.
– Oh! exclamou Mariana, Deus permita que os seus votos de amor sejam mais verdadeiros do que as suas últimas palavras...
– Por que, minha senhora?...
– Porque agora não disse a verdade. O homem do qual quer falar está ali na sala... seus olhos o procuraram ainda há pouco.
– É verdade, murmurou Henrique.
Mariana corou, e disse com violência mal comprimida:
– E o senhor... o homem a quem eu distingui com o meu amor, o senhor que é um homem nobre, porque se o não fora eu o não amara, abaixou-se até o ponto de tomar para seu rival um miserável que não tem espírito nem beleza?... rebaixou-me, dando-me por amante um moço sem mérito e que eu detesto!...
– É possível...
– Oh!... eu sei amar melhor do que sou amada!...
Henrique apertava com ardor uma das mãos de Mariana; cairia a seus pés, se não pudesse ser visto por tanta gente que estava a alguns passos deles.
– Eu sei amar melhor, continuou a viúva. Porque ao menos eu não rebaixaria o homem que amo, julgando-o capaz de esquecer-me por uma mulher que não se pudesse comparar comigo!...
– Mas aquele homem por toda a parte a segue... e eu... ah! senhora, eu já disse que sou um louco.
O rosto de Mariana tomou ainda uma nova expressão fisionômica; radiou nele outra vez o prazer, e com acento gracioso respondeu:
– Quando eu digo que amo, que me é grata uma loucura assim!...
– Que contradição, meu Deus!
– Que quer?! a culpa não é minha; quando penso em levantar-me violenta e ressentida contra essa loucura, vem logo desarmar-me a imagem do louco!...
Henrique torceu as mãos apaixonadamente, e disse:
– Ah! senhora! eu quisera sentar-me em um trono para lhe dar metade dele...
eu tremeria menos assim, porque o esplendor do meu diadema deslumbraria àqueles que ousassem erguer os olhos para aquela que se sentasse a meu lado!
– E eu, pelo contrário, respondeu a viúva com seu encantador sorriso, quisera vê-lo no fundo de um horrível abismo para descer até lá, e ir viver debaixo de seus olhos; eu então não tremeria nunca... porque nenhuma mulher quereria descer como eu e esquecer o mundo pelo abismo.
O piano tocou nesse momento os primeiros compassos de uma valsa.
– Chamam-nos! disse Mariana.
– Sim... chamam-nos... mas com suas belas palavras ficou esquecido o fim principal de nossa conversação! Sereia encantadora que o homem não deve ouvir para se não perder!...
– Ah! porém eu compreendi tudo.
– Tudo?... talvez; porém não respondeu nada.
– Eis a minha resposta, disse a viúva.
E oferecendo a Henrique sua mão direita, acrescentou, abaixando os olhos e com voz comovida:
– Ei-la aqui.
O mancebo apertou aquela mão delicada e bela com ardor e entusiasmo, e com os olhos úmidos de lágrimas de prazer, disse:
– Amanhã virei pedi-la a seu pai!
– Venha... eu o espero, respondeu a viúva.
Os dois entraram na sala ébrios de alegria e de amor.
A música viva e animadora de Strauss tinha feito voltar à sala mais alguém, que dela estava ausente.
Pouco tempo depois que Celina havia subido para seu quarto, deu Mariquinhas por falta da amiga, e adivinhando onde a acharia, correu ao segundo andar.
Quando entrou no quarto da “Bela Órfã” não pôde reter um pequeno grito de susto:
Celina estava meio deitada em seu leito, e com o rosto coberto com um lenço chorava tristemente; seus cabelos se haviam desatado e caíam-lhe espalhados sobre o lindo colo.
Escutando o grito de Mariquinhas, tirou o lenço dos olhos, e sentando-se, perguntou agitada:
– Quem é?...
– Sou eu, d. Celina, disse Mariquinhas aproximando-se; sou eu, que te venho perguntar o que querem dizer essas lágrimas.
A “Bela Órfã” passou a mão pela fronte e respondeu tristemente:
– Já te não disse que não estava boa?... é a minha cabeça que sofre.
Mariquinhas olhou para a amiga por algum tempo, e depois tornou-lhe assim:
– Sou alegre, d. Celina, tu me chamas maliciosa. d. Felícia diz que eu sou ligeira, e que não tenho juízo; mas olha, o que eu sei é que sou tua amiga.
– Eu te creio, d. Mariquinhas.
– Pois bem, sabe que compreendo alguma coisa de tua dor... não adivinho tudo, mas alguma coisa eu sei.
– Que queres dizer?
– Que não é a tua cabeça que está sofrendo.
– Então o quê?...
– É o teu coração.
– D. Mariquinhas!
– Basta! por agora nem mais uma palavra. Deixa-me arranjar teus cabelos...
teremos tempo para conversar qualquer destes dias.
– Mas eu...
– Silêncio! enxuga as tuas lágrimas. Que precisão há de que saibam lá embaixo que tu choraste?... sabes?... perguntar-te-iam, ou quereriam adivinhar por quê.
A “Bela Órfã” abaixou a cabeça, e Mariquinhas começou a endireitar-lhe o cabelo.
Quando acabava esse interessante trabalho, soaram embaixo os primeiros compassos da valsa.
– Ouves?... disse Mariquinhas.
– Sim, ouço.
– Pois vamos descer. – Para quê?... – Para dançar
– Eu não dançarei hoje.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.