Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
São dois esposos que, se viverem vinte e cinco anos, hão de celebrar o casamento de prata, e se chegarem aos cinqüenta celebrarão o de ouro.
Agora suponham que o que vou referir se passou há dois meses, ou há um mês, ou há quinze dias, pouco importa quando.
Um dia, Alexandre levou Alvira a passear pela Rua do Ouvidor; um criado os acompanhava, porque naturalmente o jovem esposo contava que a menina esposa, comprando cortes de sedas e enfeites, quereria fazê-los conduzir logo para casa.
Esta explicação seria de todo vã, se ela não servisse para indicar que os dois noivos preferiam sempre passear, estar, viver a sós.
Era uma hora da tarde, os esposos namorados tinham já tomado sorvetes, falado para Petrópolis pelo telefone, admirado tranças e crescentes para penteados, que Elvira não comprou, lastimando-se de não poder usá-los, porque os seus cabelos negros e ondeados que soltos lhe caíam até um palmo acima dos pés, e para a frente levados a esconderiam toda em densa nuvem de enchentes de anéis, não lhe permitiam sem hipérbole monstruosa crescente suplementar.
O criado já levava em cartões, caixas e embrulhos duas ricas toilettes, um chapéu maravilhosamente extravagante, três cortes de seda para vestidos, duas estupendas saias de cauda, um delicadíssimo guarda-jóias e não sei que mais...
Era uma boa carga de objetos de luxo conduzida um pouco fora de vila e termo, atrás daquele casal de pombinhos que não davam satisfações ao mundo, porque na perfeita felicidade do seu amor só se ocupavam de si mesmos.
Oh! egoísmo abençoado!...
Era, porém, uma hora da tarde, quando Alexandre e Elvira, já de volta de seu passeio, entraram na loja Notre Dame de Paris pela segunda porta, segunda para quem sobe a rua.
É indispensável breve indicação topográfica para que possam entender a história aqueles que não conhecem a casa de modas Notre Dame de Paris.
Abre ela para Rua do Ouvidor quatro lojas como independentes, e cada uma com duas vidraças de exposição e sua porta de entrada; todas quatro se comunicam, porque cada qual tem sua porta, ou antes, passagem lateral, e todas quatro acabam no fundo completamente abertas para a galeria central de exposição de vestidos, de toilettes, etc.
A galeria central comunica-se pelo lado direito com um vestíbulo que tem porta para a Praça de S. Francisco de Paula, e pelo fundo um pouco à esquerda com a porta da escada para o sobrado, e bem no meio lança corredor que termina no armazém, que mostra o seu portão de ferro diante da Igreja do Rosário, ou da Sé Velha.
Ora bem: os dois esposos namorados entraram na segunda das quatro lojas confederadas, isto é, na loja das sedas.
Elvira ficou embevecida examinando belíssímas sedas que lhe apresentavam, e Alexandre vendo lindos vestidos expostos na galeria central subiu a esta para escolher algum e preparar com ele surpresa agradável à esposa.
Enquanto Alexandre escolhia o vestido, Elvira deu por falta do marido, e foi procurá-lo na terceira loja, e em seguida na quarta.
Mas o esposo estremecido, tendo feito a escolha de que se ocupara, e dado as suas ordens, desceu da galeria central e pôs-se a viajar pelas quatro lojas confederadas em busca de Elvira, que aliás acabava de subir para a mesma sala donde ele tinha saído.
Por explicável vexame, nem Alexandre perguntava aos caixeiros por Elvira, nem esta pelo marido, e um e outro andavam a fazer voltas pelas lojas e pela galeria central, não lembrando a nenhum dos dois que o mais acertado era ficar esperando.
Essa idéia veio enfim, mas infelizmente ao mesmo tempo a ambos: Alexandre na primeira loja e Elvira na quarta esperaram debalde um pelo outro dois ou três minutos.
Perturbaram-se os dois esposos namorados sem saber o que pensassem e foram de mal a pior.
Alexandre pôs-se de novo a procurar Elvira e foi dar consigo o armazém de fundo da casa, e somente parou esbarrando no portão de ferro, e vendo defronte a Sé Velha.
Elvira agitada e temerosa a buscar o marido subiu pela porta que abre para a Praça de S. Francisco de Paula, e, perdendo a diligência, deu volta pela Rua do Ouvidor, e apenas achou o criado que esperava firme à porta da segunda loja.
Não lhe dando o criado notícias do marido, Elvira pensou nas modistas e nas costureiras, e, ciumenta pela primeira vez, avançou para dentro da loja, atravessou a galeria central e subiu para o sobrado.
Alexandre voltava então do armazém do fundo, e se tivesse levantado os olhos para a escada, diante da qual passava, teria visto a esposa subindo-a; ele, porém, vinha já desapontado, porque um caixeiro que fora em serviço ao armazém acabava de dizer-lhe que sua senhora tinha saído pela porta da Praça de S. Francisco de Paula.
Por essa mesma porta se lançou Alexandre, e depois de gastar brevíssimo tempo a olhar para todos os lados sem avistar a sua Elvira fez o que ela tinha feito, deu volta pela Rua do Ouvidor e foi encontrar o criado imóvel no seu posto de obediência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.