Por Adolfo Caminha (1893)
Não podia se conformar com a idéia da morte do presidente, o homem da moda, o “querido das moças”, o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a essa província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando as obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas, e, finalmente, introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como por exemplo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animais de sela. Lembrava as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar num sotaque aportuguesado, muito moderado na conversação íntima, as suas maneiras delicadas, os belos dentes branquejando sob um bigode sedoso e bem tratado. Uma vez, no baile oferecido à oficialidade do cruzador “1º de Março” dançara com ele uma quadrilha, por sinal bebera muita champanha nessa noite a ponto de ficar um pouco tonta da cabeça. Coitado! uma alma boa. É verdade que tinha demitido o Pinheirão mais os filhos, deixando-os na miséria, mas no dia seguinte mandara-lhes um envelope com cinqüenta mil-réis. Tudo por causa da política; a política é que o fazia mau. Tinha rasgos de generosidade fidalga, lá isso era inegável, tanto assim que um dia dera ao negro Romão, um negro sujo como aquele, cinco mil-reisinhos. Era uma pena se morresse, coitado, havia de fazer uma falta tão grande! — Compadecia-se como se fosse seu parente. Balbuciou uma promessa às almas do purgatório e só muito tarde, pela uma hora da manhã, conseguiu adormecer.
Ao outro dia procurou saber logo como ia o presidente. As notícias eram cada vez mais desagradáveis. As janelas do palácio continuavam fechadas e os transeuntes olhavam contristados o casarão ao redor do qual pairava uma melancolia lúgubre. Os boatos multiplicavam-se penetrando todas as casas como um vento de desgraça. A Província suspendeu a publicação por condolência, e os jornais da oposição fizeram uma pausa nos seus ataques à administração provincial. As filhinhas do presidente estavam em casa do José Pereira, na rua Major Facundo, duas crianças louras e inteligentes, que falavam francês, uma nascida em Paris, e outra no Rio de Janeiro. Às duas horas já se dizia que o “homem” não escapava. Um cabo de ordem arrastando o chanfalho, passava a toda pressa em direção do telégrafo. O espírito público começava a inquietar-se com a sorte do presidente, e os próprios adversários políticos enchiam-se de penas concentradas.
Pela noite desabou um formidável aguaceiro e toda a população, por assim dizer toda, aguardava ansiosa, dentro da casa, ao sussurro da chuva que caía fora, sacudida pelo vento sul, notícias sobre o estado do Dr. Castro.
Maria, como toda a gente, sentia um peso no coração ao lembrar-se daquele homem sadio e robusto, a seus olhos a síntese da mais requintada elegância, que tanto amara o Ceará, e cujo nome andava gravado a canivete até no tronco dos cajueiros, nos sertões por onde tinha andado, tão moço ainda e já às portas da morte acabando-se como qualquer mortal! — A providência às vezes era injusta, como os homens: poupava um ente abominável como o padrinho e um pelintra desleal como o Zuza, para aniquilar, enquanto se esfrega um olho, um homem da força do Dr. Castro, “útil ao país e benfeitor da humanidade”!
Indignava-se com essa preferência injusta das cortes celestes, e, de si para si, concluía que não valia a pena uma pessoa ser honesta, trabalhar noite e dia, dedicar-se a uma causa nobre, engrandecer-se aos olhos da humanidade para um belo dia — toma! vá para a cova que é o seu lugar! Uma coisa estúpida a vida, afinal de contas.
Entretanto outros viviam aí a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar, a iludir os incautos e tinham vida para um século inteiro, livres de congestões, de febre amarela, e de quanta doença há.
Acordou cedo e foi-se pôr à janela à espera de alguém que lhe desse notícias do presidente. O céu estava carregado de nuvens compactas, e neblinava. A casa da viúva Campelo, defronte, estava fechada; a viúva tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica.
Passou um empregado da Estrada de Ferro, condutor de trem, com as calças arregaçadas, comendo pão. Maria chamou-o: — O Sr. sabe me dizer como vai o presidente?
— Faleceu às duas horas da madrugada, respondeu o sujeito mastigando, indiferente.
— Obrigado, disse Maria empalidecendo, e entrou imediatamente, batendo o postigo. — Coitado! foi dizendo pela casa com grande mágoa na voz. Coitado! Que pena!
— Que foi? perguntou o amanuense que subia o corredor em ceroula. — O presidente, que morreu!...
João parou assombrado como se lhe tivesse caído um raio defronte.
— Morreu, hein?!
— Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro.
— Realmente! E vá a gente se fiar na justiça divina! Morre um homem daqueles, da noite para o dia, como qualquer bêbado!
E lá se foi resmungando contra Deus e contra os padres.
Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados. Aumentava a chuva, que já se ouvia chiar nas calçadas, como uma panela fervendo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.