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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Mas como fazê-lo? Nada mais simples. Na primeira pausa que os remeiros fizessem para descansar, Macário disfarçado e sagaz chegar-se-ia a eles, e com o modo mais natural deste mundo, diria animando-os: — Vamos, rapazes, remem! Pouco nos falta para chegarmos ao porto dos Mundurucus. E devemos lá chegar quanto antes. Quem sabe se algum cristão não está lá à nossa espera para o salvarmos de ser comido pelos gentios? O efeito seria infalível. Os tapuios, irados, pediriam satisfações, e então Macário, complacente, explicaria: — Não se assustem. Vamos ao porto dos Mundurucus, mas indo o senhor vigário conosco não há perigo algum. Se os índios pegassem a qualquer de vocês desgarrado, comiam-no com certeza assadinho de espeto, está claro. Mas em companhia do senhor padre, isso não, não há perigo. S. Rev.ma vai mandado por Deus Nosso Senhor e por Nossa Senhora do Carmo converter os mundurucus ao cristianismo. É certo, portanto, que os mundurucus não o hão-de querer matar! Então o Pedro e o João pegariam os remos e virariam de bordo, proa para baixo, apesar de todas as instâncias de padre Antônio de Morais. Toda a dificuldade estava, apenas, em sofrer as conseqüências prováveis do desespero de S. Rev.ma! Macário hesitava, e enquanto isso, a canoa continuava, impelida pelos remos. À proa da igarité o grande rio Abacaxis corria para o sul, a perder de vista, fechando na espessura das altas florestas da sua margem a boca do Uraná. Na vastidão do rio, nenhuma canoa, nenhum sinal de vida aparecia, e a espessura da floresta ocultava a solidão ignota do deserto amazonense. Começava a selvageria ali. A impressão que padre Antônio recebera, absorvia-o no pensamento religioso da missão. Acudia-lhe a idéia de encontrarem breve os ferozes munducurs.

A imaginação exaltava-se. Já cuidava em dirigir a palavra aos índios, chamando-os ao seio de Cristo, persuadindo-os a abandonarem a vida errante de guerras e roubos para se entregarem ao doce jugo da civilização brasileira. Previaos relutantes, ébrios de ódio, ardentes de vingança, agarrando o missionário, amarrando-o a uma árvore, crivando-o de setas como a outro S. Sebastião. E aquele martírio prelibado entusiasmava-o, achando-se grande e só na vasta amplidão do deserto. Aquele, sim, era um ideal digno de padre Antônio de Morais! Aquele o templo para as suas orações, aquele o teatro para os seus merecimentos, aquela a preocupação para o seu espírito religioso e austero. Uma ambição desmarcada enchia-lhe o cérebro e o perturbava. Mártir de Cristo, o seu nome, até ali obscuro, ressoaria pelo mundo, levando os ecos às gerações da posteridade. Seria o Francisco Xavier das florestas amazônicas, o Apóstolo das Índias Ocidentais, e um dia o Hagiológio romano contaria outro Santo Antônio, que não fora vítima resignada das tiranias de Ercelino.

De súbito a igarité parou.

— Que é isto, patrícios? perguntou.. padre Antônio, descendo da tolda e aproximando-se dos remeiros. Por que deixaram de remar?

— Mundurucu, responderam ao mesmo tempo, o João e o Pedro, apontando a esteira do Abacaxis, à proa, unindo-se ao céu azul.

— Que estão dizendo, exclamou Macário, sem poder endireitar as pernas.

Padre Antônio olhou sofregamente para todos os lados, esperando ver realizar-se naquele momento o seu sonho de martírio. Não viu mais do que as duas margens do rio, prolongando renques de árvores até acabarem numa fita negra. A igarité uma vez cessado o movimento impulsor, descambava, cedendo à força da correnteza. Toda a vastidão do rio respirava o mais absoluto sossego.

— Onde estão os mundurucus? perguntou Macário, com dolorosa ansiedade.

Pedro deu uma gargalhada e explicou o caso. Não havia ainda mundurucus, mas dobrando uma ponta do Abacaxis, que já se avistava ao longe, entrava-se no Guaranatuba, e ia-se direito às paragens infestadas por índios bravos. Ora João e Pedro não queriam continuar a viagem. Preferiam voltar para o Amazonas, não estavam para ser flechados como tartarugas. Uma gargalhada de João fez ressaltar a tolice de se exporem ao risco que indicara a comparação achada pelo companheiro.

— João e Pedro, continuava este com loquacidade desusada, são maués, cristãos, graças a Deus, mas ainda maués. A tribo de maués desde que o mundo é mundo e o mar cercou as terras, vive em guerra com os mundurucus. Maué que visse mundurucus quebrava logo o cachimbo e não comia mais farinha. João e Pedro ainda queriam comer farinha e fumar tabaco.

Macário triunfava. O seu plano surtira bom efeito, e, admirável resultado do seu engenhoso maquiavelismo! nem fora preciso proferir a palavra! Agora contra a relutância invencível daqueles tapuios teimosos e prudentes, quebrar-se-ia a vontade do senhor vigário. Mas para não descobrir ao padre o expediente o sacristão começou a blaterar contra a inconstância dessa súcia de caboclos vadios e medrosos cuja vida se resume em comer e dormir, e cujo egoísmo preguiçoso põe em apuros os brancos confiantes.

(continua...)

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