Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

O rígido velho, curtido de preconceitos e fechado o coração nas resoluções inabaláveis, como num túmulo, não podia conciliar o sono. A espaços, erguia-se da rede, ia à porta, sempre aberta; contemplava a filha culpada, acocorada ao lado do burro enfermo; e, no misterioso silêncio da noite estrelada, ouvia um murmúrio dolente, um estertor de fonte, que se estanca, o pranto de Teresinha velando o animal para que os urubus, postados nas arestas dos rochedos, como vedetas sinistras, não o devorassem vivo.

CAPÍTULO XXV

Com irrepreensível impaciência, esperou Luzia que algum dos raros conhecidos lhe trouxesse as últimas notícias dos acontecimentos do dia. A cada momento, se lhe afiguravam vultos de homem, esboçados nos cúmulos da poeira, que o vento rijo da tarde revolvia, em redemoinhos, pela estrada, como um sinal do vento baixo, rasteiro, sinal de seca. Talvez Alexandre livre, remido da infâmia, radiante de ternura a lhe sorrir com amor. Tinha estremecimentos de júbilos comedidos; a efêmera visão fugia com as colunas de pó desfeitas, e a pobre recaía desiludida numa dolorosa apatia de quem espera em vão.

Ninguém aparecia. Alexandre, cheio de brio, magoado pela crueza com que ela o tratara, não viria, contido pelo mesmo propósito que a condenava a estar ali, a estorcer-se em voluntário suplício, estimulada de fútil obstinação em resistir ao impulso de correr a recebê-lo no limiar do cárcere.

Nem vivalma. Estavam todos, àquela hora, recebendo, em ração, o salário da semana, pago aos sábados, nos postos de distribuição de socorros, ou na obra da penitenciária. Ela via as suas meninas amadas, Quinotinha e outras da tenda de costuras, sobraçando saquinhos cheios de víveres; as suas companheiras de trabalho aguardando a chamada, a tagarelarem com a garridice de maracanãs nos roçados; outras tristes, desconsoladas, recebendo os quinhões que deveriam passar às mãos de atravessadores, em paga de adiantamentos usurários; muitas agrupadas em torno da figura hercúlea, vermelha e ruiva de Raulino Uchoa, com a distinção de tipo de outra raça, entre os ouvintes, emaciados de privações, minados pelos tóxicos das raízes de mucunã, de pau-mocó, esboroadas em farinha. Ele costumava matar o tempo com a narrativa pinturesca das façanhas inverossímeis de amansador de animais bravios, orelhudos que nunca tinham visto gente, as áfricas de vaqueiro de fama, temido dos barbatões mais ferozes das catingas e carrascões impenetráveis, as proezas de caçadas de onças acuadas em furnas sombrias, onde ele as agredia, armado de uma simples azagaia. Contava das viagens extraordinárias, aventurosas pelo sertão inundado, da intrepidez com que afrontava o ímpeto dos rios desbordantes, nadando em cavaletes de molungu no tempo – até parecia sonho – em que Deus ainda se lembrava, piedoso, do Ceará, para dar-lhe chuvas copiosas e fertilizadoras dos campos, trombas d'água devastadoras, rotas nas cumeadas das serras, descendo em catadupas raivosas, invencíveis, pelos telhados, encostas verdejantes, arrastando rochedos, árvores, plantações, até se espraiarem na planície, à maneira de um mar, arrombando açudes, soterrando bebedores, cavados durante a seca. Descrevia com a linguagem fantasiosa, ardente, de vigoroso colorido, com as imagens vivas, sugestivas do rude estilo sertanejo, o fragor das correntes raivosas de concerto com o ribombo ininterrupto da trovoada, o relampear das nuvens negras e maciças, es ziguezagues fulvos a riscarem o céu, com letras cabalísticas, ameaçadoras, traçadas pela ira de Deus; o estrondo horrível dos coriscos, o pavor do gado, haurindo, a largos sorvos; o ar saturado de ozonona, reunido, em magotes, nos cômoros da planície encharcada.

Presos aos lábios do narrador imaginoso, os retirantes mal continham lágrimas, ouvindo-o evocar, entre episódios da vida sertaneja, fatos e coisas, dons do céu, para sempre perdidos, água, verdura, roçados, safras opimas, alegria e fartura, cortados os corações pela amarga saudade de recordar tempos felizes.

Luzia meditava, fitos os olhos, com uns gestos de sufocado pranto, nas rubras chamas vacilantes, desprendidas dos tições, quase apagados, espevitadas pelo vento e crepitando nuns feixes de centelhas intermitentes.

— Ninguém – murmurou ela, magoada pelo abandono – Nem vivalma! E Teresinha? Que será feito daquela cabeça de vento? Onde se meteria? Nem pensa em mim, que a espero... Ah! se ela soubesse... Qual... está com ele, e eu, coitada de mim...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6162636465...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →