Por Aluísio Azevedo (1881)
De vez em quando ouvia-se um suspiro estalado e o froon nasal das moças que assoavam as lágrimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa, conversava soturnamente sobre as boas qualidades e as virtudes da defunta. Tinham a voz medrosa de quem receia acordar alguém ou ser ouvido pelo objeto de conversação.
— Era pra um tudo!... afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas muitas!... que lhas hei de pagar com padre-nossos! Inda s'tr'oudia, quando me atacou a pneumonia na pequena, com quem foi que me achei?!... Pois olhe que os doutores de carta não lhe souberam dar voltas! E hoje, minha rica?... Ela está aí fina e lampeira, que faz gosto, ao passo que a pobre da senhora D. Maria do Carmo... Deus me perdoe, até parece feitiçaria! — E apontou para o cadáver com um gesto desconsolado. — Ao menos descansou, coitada!
— Não somos nada neste mundo!... suspirou, com a mão no queixo, uma mulherzinha magra e pisca-pisca, que ate então se conservara numa imobilidade enternecida.
E contou a história de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morreu na flor da idade.
Este caso puxou outros. Foi um cordão de anedotas fúnebres. A mulata obesa fechou a rosca, narrando, muito sentida, a história de um papagaio de grande estimação, que ela possuía, e que, um belo dia, cantando, coitado! a “Maria Cachucha”, caíra para três — morto!
— Credo! exclamou Amância. E, voltando-se para a mulata, com os óculos na ponta do nariz.
— Nhá Maria! esta espiguilha é toda para o véu, ou tem de se tirar daqui também os laçarotes?...
Depois do enterro, quando Maria Bárbara, de volta a casa entrou no seu quarto, dera logo com a vela de cera gasta até o fim e com a singular mascara do seu milagroso São Raimundo; ficou aterrada, sem saber o que pensar, e, na sua cegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos defronte do oratório e pôs-se a rezar fervurosamente.
Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, não pode dormir senão pesa volta da madrugada; e, à força de meditar o caso, acabou por enxergar nele um milagre. Sim, um milagre, justamente como o explicam os catecismos que se dão na escola e como a sua própria mestra lhe ensinara—um mistério incompreensível. “Não havia que duvidar - Deus Nosso Senhor servira-se daquele engenhoso ardil] para preveni-la de presentes e futuras calamidades!...”
Entretanto, só ao cônego se animou de confiar o fato, e até lhe pediu segredo, que, se o genro viesse a conhecê-lo, havia de sair-se com alguma das suas. Já lhe estava a ouvir resmungar com o seu insuportável risinho de homem sem fé “Pomadas de minha sogra!...” Além disso, se São Raimundo quisesse tomar público o seu sagrado aviso, não usaria dos meios que empregou!...
— Agora, o que está entrando pelos olhos, senhor cônego, é que aquele maldito cabra do Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane, porém a coisa toca-lhe a ele por casa!
— Pode ser, pode ser... Davus sum non Edipus!...
— E o que devo fazer?...
— Ofereça uma missa a São Raimundo. Cantada, não seria mau... Uma missinha cantada!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.