Por Aluísio Azevedo (1895)
- Ah! mas desta vez creio ter conseguido endireitar a vida ... . disse ele logo que entrou em conversa com o dono da casa.
E pôs-se a contar o ocorrido a respeito de Leonília e Ernestina.
- Tomara eu as tuas desgraças... respondeu aquele disposto a falar dos próprios amores.Teobaldo não lhe deu licença para isso e continuou a tratar de si, até à ocasião de irem ambos para a mesa.
Aguiar, que não era dos mais pecos em questões culinárias, caprichou no jantar que ofereceu ao amigo, e, à prova do terceiro vinho, já os dois lamentavam intimamente não dispor de mais segredos para os confiar um ao outro. Teobaldo pediu novas informações a respeito de Branca.
- Ah! fez o negociante, meneando a cabeça com os olhos fechados; vais ver o que é uma criatura perfeitamente adorável. Bela. inteligente, distinta, espirituosa, tudo o que há de bom, que há de puro e que há de mais sedutor no mundo! Uma obra-prima! Ah! que se ela sentisse por mim a metade do que eu sinto por ela!...
- É não desanimar, filho! Deixa correr o tempo; não acredito que uma menina de quinze anos resista a todo esse amor!
- Não sei, ela é de uma tal frieza para comigo...
- Talvez aparente... Não conheces as mulheres... foi para elas que se inventou o provérbio "Quem desdenha quer comprar".
- Em todo o caso não desanimarei sem ter esgotado até o último recurso.
- Está claro! E teu tio? que tal é?
- Um tipo, mas belo homem... Vais gostar dele. Fala-lhe na revolução mineira...
- Aquela casa pertence-lhe, ou é alugada?
- A casa em que ele mora? Pertence-lhe, e, como essa, mais duas lá mesmo em Botafogo.
- E ele vive só com a filha?
- Não; tem mais uma pessoa em casa: Mme. de Nangis.
- Mme. de Nangis? Quem vem a ser?...
- É uma professora francesa, a quem meu tio encarregou da educação de Branca.- Ah!... E é velha?
- Meia idade...
- Bonita?
- Não é feia.
- Mora lá há muito tempo?
- Há mais de oito anos.
- E não dizem nada a respeito dela com teu tio?
- Não, porque já disseram tudo o que podiam dizer.
- Com razão?
- Sei cá; é de supor que sim.
- Nunca percebeste nada entre eles?
- Nem pretendo.
- Por conveniência...
- Não.
- Então por que?
- Ora! Que diabo me interessa isso?...
- É boa! Pois não tencionas casar com tua prima?...
- Sim, mas minha prima nada tem que ver com Mme. de Nangis...
Teobaldo sacudiu os ombros em sinal de desaprovação.
- E ela que tal é? Simpática? perguntou depois.
- Quem? A professora? É: toca piano admiravelmente e dizem que tem espírito.
- Dizem?
- Sim; eu ainda não dei por isso.
- É instruída?
- Tanto como qualquer pretensiosa.
- Amável?
- Tanto quanto é instruída.
- Parece que não morres de amor por ela...
- Enganas-te; Mme. de Nangis protege o meu casamento.
- Ah! E só por isso é que a estimas?.
- Por isso e pela grande influencia que ela tem sobre meu tio.
- Então é exato o que disseram a respeito deles...
- Homem, a coisa vem desde os últimos tempos de minha tia...
- E por que o velho não se casa agora com a professora?
- Por uma razão muito simples: Mme. de Nangis é casada...
- Casada? E o marido?
- Está em Paris.
- Ah!...
E a graça é que lhe dá uma pensão.
- À custa do comendador?
- À custa do comendador é um modo de dizer, porque o que é dele é dela...- Ah! a coisa chegou a esse ponto?
- Ora!
* * *
Às dez da noite apearam-se os dois rapazes à porta do comendador Rodrigues de Aguiar. Casa antiga, de aparência muito feia, mas com um belo interior. Teobaldo, ao primeiro passo que deu de portas adentro, notou logo em tudo uma certa felicidade de escolha, uma bem educada sobriedade nos objetos de luxo; percebeu que não entrava em uma dessas casas burguesas em que a gente se fatiga só com olhar os móveis e donde se sai com a alma atordoada e cheia de tédio.
Ele, que havia muito não entrava em uma sala dessa ordem, sentiu despertar dentro de si todo o seu passado adormecido, e, como a planta desterrada que ia amortecendo ao ar livre e logo se endireita quando a recolhem à tepidez da estufa, assim ele se fez o que era dantes ao lado da família.
Ali, Teobaldo achou-se perfeitamente bem; estava no seu elemento.
Flor amimada e crescida entre carinhos, era, quando se achava nas ruas, nos cafés ou nas casas de trabalho, uma criatura deslocada e nostálgica. Para o seu completo bemestar e para o seu bom humor tornava-se indispensável aquele perfume de riqueza, aquele meio aveludado e fino.
O amigo apresentou-o ao tio, e os três conversaram por longo tempo ao fundo de uma saleta, onde se jogava.
É inútil dizer que o filho do Barão do Palmar, insinuante como era, cativou logo as simpatias do velho, principalmente depois que lhe falou de Minas e do papel que seu pai representara na revolução. Aprovou muito o projetado casamento do amigo com Branca e terminou desfazendo-se em elogios ao bom gosto e à distinção que presidiam àquelas salas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.