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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Eu talvez a esteja constrangendo... arriscou Gregório, procurando delicadamente desviá-la dos seus braços.

— Não! respondeu ela, puxando-se para ele e chegando o rosto para os lábios do rapaz. Mas logo o repeliu, como se arredasse da sua carne palpitante um cadáver já frio.

Entretanto a tarde principiava a encher a natureza de sombras. As aves despediam-se do sol com os seus últimos gorjeios, e as árvores se retraíam no misterioso recolhimento do crepúsculo.

CAPÍTULO XIX

O ACROBATA

Só às sete e meia conseguiram alcançar a casa. Todos os esperavam com ansiedade. Augusto havia chegado muito antes, mas ao saber que os dois companheiros não tinham aparecido, e receoso de que estivessem perdidos no campo, voltou à procura deles e trouxe-os consigo. Olímpia, com grande espanto geral, longe de chegar aborrecida e contrariada, entrou em casa muito satisfeita, atirou-se rindo aos braços do pai, e ordenou gracejando ao hoteleiro que lhe servisse o jantar.

Vinha tão expansiva e folgazã que a todos causou verdadeira surpresa. O sol emprestara-lhe às faces um vivo cor-de-rosa, que lhe enfeitava o rosto com muita graça; os seus olhos jamais luziram com tanta vida, e ela toda nunca parecera tão bem disposta e tão sã.

O comendador, que havia passado o dia em sobressaltos com a demora da filha, era de todos o mais encantado por aquela metamorfose. Olímpia parecia-lhe agora como nos bons tempos, quando governara com o espírito toda a sociedade em que se achasse.

— O Dr. tinha razão! dizia o velho consigo; os exercícios são de evidente efeito! Hei de fazê-la, uma vez por outra, visitar a gruta! Se as melhoras continuarem deste modo, em breve tenho minha filha perfeitamente curada!

E o comendador chorava de alegria.

O jantar foi de uma animação sem exemplo na Avenida Estrela; os mesmos hóspedes que haviam comido já, voltaram à mesa atraídos pelas gargalhadas explodidas em torno da descrição que Olímpia fazia do seu passeio. Gregório, entretanto, não parecia o mesmo: estava abatido e concentrado. Por duas vezes seus olhos cruzaram-se no ar com os da caprichosa senhora, e ele por duas vezes os abaixara, dominado pelo mais estranho acanhamento.

— Pois eu pensei que chegasses aqui sem uma hora de vida! observou o pai, embebido a olhar para a filha, enquanto lhe servia a sobremesa.

— Nunca me senti tão bem disposta! respondeu ela, a estender o copo ao Falconnet para que lhe desse vinho. Sinto-me tão bem que estou resolvida a ir hoje a qualquer teatro!

— Que dizes?! exclamou o comendador, arredando a cadeira, com um salto.

— Que espanto! observou a rir a filha.

— Se te lembra cada loucura!

— Oh! Pois não é o senhor mesmo que me tem pedido todos os dias para ir aos teatros, aos bailes e aos passeios?...

— Sim, mas não depois de um dia como este!...

— Pois em outra qualquer ocasião não me lembraria semelhante coisa. Se recusei das outras vezes e aceito agora, é porque só agora tenho vontade de ir...

— Mas é que talvez venha a fazer-te mal!

— Isso mesmo me dizia o senhor antes do passeio à gruta.

— Não desejo contrariar-te, mas...

— Vai sempre me contrariando, não é verdade?

— É que lá são oito horas; tu deves naturalmente estar muito fatigada e...

— Ora, valha-me a paciência! Sinto-me, ao contrário, perfeitamente disposta.

E Olímpia, ameigando o pai, ordenou-lhe que se fosse vestir.

O comendador obedeceu, a dar de ombros. Papá Falconnet trouxe para a mesa os jornais do dia e discutiu-se qual seria o espetáculo preferível. Olímpia, sem se pronunciar por nenhum, recolheu-se ao quarto com a criada, enquanto ia chamarse um carro e às dez horas partia com o pai para a cidade.

Em caminho decidiram-se pelo teatro S. Luís, onde trabalhava essa noite o Furtado Coelho, mas, no momento de comprar os bilhetes, Olímpia tomara outra resolução: queria ir ao Chiarini.

E o carro voltou para a Guarda Velha.

Funcionava o segundo ato, quando ela entrou no circo pelo braço do pai. Havia uma grande enchente; o entusiasmo explodia por toda a parte e todos os lados gritavam:

— Scott! À cena o Scott!

Dois sujeitos de libré azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro um cavalo que acabava de servir. Muitos espectadores estavam de pé. Das galerias trovejava um barulho infernal: batiam com as bengalas, com os pés; gritavam, gesticulavam. E por entre aquela descarga contínua e atroadora, só um nome sobressaía, exclamado por mil vozes:

— Scott! Scott!

Olímpia sentiu-se aturdida no meio daquele pandemônio. De repente, um grito uníssono partiu da multidão; estalaram de novo as palmas, choveram os chapéus, agitaram-se os lenços, arremessaram-se os leques, os ramalhetes e as bengalas.

Scott havia reaparecido.

— Bravo! gritavam. Bravo!

E os aplausos estouraram com mais intensidade.

— Bravo, Scott! Bravo, Scott!

O acrobata, que entrara de carreira, parou em meio do circo, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira, e, voltando-se para todos os lados, atirava beijos e agradecia sorrindo, entre uma tempestade de aplausos.

(continua...)

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