Por Aluísio Azevedo (1884)
Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão crivado de pilhérias, de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por todas as bocas da publicidade.
Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.
— Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência, mas em coisas que cheire a política, nunca mais meterei o bedelho! Nada! hei de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!
Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome, porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.
Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos despenteados e soltos ao ombro.
— Então, heim?!... Que me dizes tu à brincadeira?.. exclamou ele, indo ter com a mulher.
— Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política!
respondeu Filomena, erguendo-se muito triste
E a partir dai deixou-se tomar de uma grande melancolia,
Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois febre, acompanhada de delírios.
Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.
Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão, de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo de enfermeiro à esposa.
Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.
Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão, e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que eram igualmente a sua alegria e a sua força.
Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, abatida, que não parecia a mesma.
Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a de beijos.
A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.
— Como te sentes? ... perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?
Filomena respondeu que sim com a cabeça.
— Isso nada vale!... Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar. Agora mesmo venho de estar com ele; amanha tratarei da viagem.
E, chegando-se mais para a esposa, principiou com multa ternura a dizer os seus projetos:
— Seguiriam juntos e mais o Urso para um lugar que escolhessem no campo. — Paquetá, por exemplo, "Paquetá, que ele não via há quanto tempo!... e da qual sentia tamanhas saudades!..."
— Ah! que bom! uma existência calma e despreocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre multo limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiros, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota de Brocoió!...
— Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal!... dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, indireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!
E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:
— Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá!... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar!... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!...
— Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes!
exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.
Filomena ouvia-o em silêncio, a olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.