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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

E, cruzando os braços, interrogou com voz terrível, perfilado defronte de Ozéas:

— E quem te deu o direito de deformar minha alma?! Quem te deu o direito de fazer de mim um padre?! Quem?! Responde!

— As minhas sagradas convicções, as minhas crenças! ... respondeu o egresso.

Ângelo sorriu ironicamente.

— Crenças! ... convicções! ... disse. E tudo isso de que me serve agora?!... Eu quero viver! eu quero o quinhão de vida a que tenho direito! Restitui-me a minha mocidade, o calor do meu sangue, o meu talento! Entrega-me o que me roubaste, ladrão!

Ozéas deixou-se cair de joelhos e abriu os braços, volvendo para o céu os olhos lacrimosos.

— Ó meu Deus! suplicou. Ó meu Deus! piedade para ele! Socorrei-o!

Iluminai-o com a vossa divina graça! ...

— É tarde!... rouquejou Ângelo. A sombra de Alzira bem o disse!... É tarde, roubador de crianças, salteador de almas! Já nada tenho a perder, porque me roubaste afinal a última ilusão! Nada mais me resta a fazer neste mundo de nojentas misérias! Sê maldito! Adeus!

E lançou-se de carreira para o abismo onde terminava o cemitério.

— Meu filho! meu filho! atende-me, por amor de Deus!

— Não sou teu filho, não sou nada, sou um padre! respondia Ângelo, debatendo-se para arrancar-se dos braços dele. Deixei de ser um vivo entre os mortos, sou um morto entre os vivos!

— Que vais fazer, Ângelo!

— Completar naquele abismo a tua obra, bandido!

— Não! gritou Ozéas, fazendo um supremo esforço para desviar o filho do precipício. Não te matarás!

E engalfinhados numa tremenda luta, rolaram até à sepultura de Alzira.

— Não hás de morrer!

— Pois morrerás tu! exclamou o pároco, ofegante, pondo-lhe o joelho sobre o peito.

E arrancou uma cruz da terra.

— Vês?... disse, bramindo-a com o braço erguido. É com a própria arma da tua religião que te vou ferir!

E cravou-lha na garganta.

— Ah! gemeu Ozéas. Perdoai-lhe, Senhor!

E vendo que Ângelo galgava a rampa do precipício, tentou ainda arrastar-se para lá, inutilmente. Gorgolava-lhe forte o sangue da ferida.

— Ângelo! meu filho! Atende! vagiu agonizando. Não procures a morte!

— Não é a morte, é o sono eterno! respondeu o pároco. Eu quero sonhar!...

E de um salto precipitou-se no abismo.

FIM

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