Por Aluísio Azevedo (1897)
correspondentes às suas circunstâncias individuais, todos os sonhos de ambição e todos os delírios de grandeza que encheram a vida inteira de seu pai.
Era o comendador Moscoso quem estava ali a sonhar, em plena mocidade, não como ambicioso caixeiro de taverna, mas como uma vaidosa rapariga de coração maleducado.
Ela, porém foi interrompida nos seus incipientes devaneios por um fulminante berro, que lhe gelou nas veias o sangue e lhe sumiu a luz dos olhos.
Era o louco que vinha de novo ao seu encalço.
Ambrosina soltou um grito e, perdendo os sentidos, cambaleou um momento, e desabou afinal sobre a calçada.
XXV
A FLOR DO RUSSELL
Jorge, o cocheiro de Gaspar, era um homem membrudo e de fisionomia áspera, tipo mais puxado a espanhol que a brasileiro.
Cabelos negros e crespos, achatados na testa pelo uso constante de um grosseiro chapéu de feltro, olhos escuros, cor de tabaco, barba espessa, fartas sobrancelhas arrepiadas, nariz grosso, afogado em sangue, dentes grandes e quadrados.
Cobrialhe a pequena parte do rosto que não fora conquistada pela invasão brutal dos cabelos, um moreno quente, listroso, cheio de vida e de força. Tinha as mãos largas e resguardadas de músculos possantes, peito amplo e pescoço vigoroso.
Entretanto, por detrás daquela estatura gigantesca e de energia de seu todo, estava um coração brando e flexível.
Jorge era um bom homem. Gaspar tomarao ultimamente a seu serviço, mas já o conhecia de longa data. O Médico Misterioso exercia sobre ele grande influência moral e votavalhe amizade.
Quando, na noite do infeliz jantar, Ambrosina fugia por um lado da chácara, procurando abafar os passos para não ser percebida pelo marido, Jorge entrava pelo outro, com a precaução de quem deseja surpreender alguém.
Não se viram.
A moça ganhou a rua, e ele, seguindo as recomendações do amo, foi ter à janela da dispensa. Estava aberta, Jorge galgoua, acendeu aí a sua lanterna furtaluz e, estendendo o pescoço, espiou para a sala de jantar, por cima da porta, pela qual justamente pouco antes fugira aquela.
O cocheiro não podia, donde estava, ver com quem altercava o doido, mas segundo o que lhe havia dito Gaspar, devia ser com Ambrosina.
A sala continuava quase às escuras.
No momento em que Leonardo ia lançarse sobre Alfredo, Jorge abriu de improviso a porta da dispensa e avançou resolutamente para ele, com um revólver em uma das mãos e a lanterna furtaluz na outra. O doido voltouse assustado, escondendo a faca nas costas.
— Dáme já desse ferro! bradoulhe o cocheiro.
Leonardo atirou humildemente a faca ao chão, e retraiuse. Jorge apanhoua, e perguntoulhe asperamente se ainda tinha alguma arma consigo.
O doido meneou afirmativamente a cabeça e, refilando os dentes, apontou para estes.
— Dessa arma não tenha eu medo! rosnou o cocheiro; mas revistemos sempre as algibeiras...
E começou a apalpar as roupas de Leonardo.
— Não me faças cócegas! gritou este, torcendose todo, a rir.
E fugiulhe das mãos.
— Tratemos agora da menina! disse aquele.
Alfredo saíra, afinal do seu esconderijo. Jorge chegoulhe a lanterna ao rosto, e olhouo com surpresa.
— O quê?! Pois era o senhor que cá estava, seu Alfredo? Como diabo me afirmou o patrão que era a D. Ambrosina?...
Alfredo engoliu a última saliva, que o medo lhe havia gelado na garganta, e explicou a situação com a voz ainda trêmula.
Um rumor lá fora chamou nesse momento a atenção de Jorge.
— Com os diabos, que lá se nos vai o doido!
Leonardo, com efeito, enquanto os dois conversavam, galgara a janela da dispensa e fugira pelo jardim.
Foi nessa ocasião que ele seguiu para onde estava Ambrosina.
Alfredo e o cocheiro, depois de certificados de que Leonardo não se havia escondido na chácara, apagaram o gás, fecharam a casa pelo melhor que puderam, e seguiram para a rua.
Por onde diabo teria tomado aquele maldito? dizia e repetia Jorge, a olhar para todos os lados; até que percebeu Leonardo na ocasião em que este surgia junto à mulher.
Jorge correu para lá, e Leonardo, mal o bispou, abriu num carreirão pela estrada, a fugir.
— Fique com ela! bradou o cocheiro a Alfredo; que eu vou na pista daquele danado!
E lançouse a perseguir o doido.
Dez minutos depois, voltava, coberto de suor.
— Escapounos! o demônio! Mas deixa estar que não as perdes, patife! O lugar dos doidos é no hospício!
E, voltandose para Ambrosina, que recuperava os sentidos:
— Ora, em que bonito estado deixou esta pobre criatura! Peste de um maluco!
E, praguejando cada vez mais, o cocheiro amparou Ambrosina nos braços.
— Pobre senhora! Tem os pés que são uma lástima!...
Resolveuse que iriam pernoitar em casa de Jorge. Ambrosina, por ser este o sítio mais perto, e Alfredo porque jurara aos seus deuses não largar àquela noite a companhia do cocheiro.
— Nada! que o doido podia encontrála ainda pela estrada!
Começou a chover.
Só meia hora depois, apareceu um carro e, depois de outra meia hora, chegavam os três à modesta habitação do cocheiro — uma casinha na Praia do Russell; porta e janela, pouca mobília, quartos acanhados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.