Por Bernardo Guimarães (1883)
Subindo as escadas, Carlos pensou que ia sendo assumido ao paraizo, a cuja porta um cherubim o esperava para introduzil-o na mansão das delicias eternas. Todavia não ia muito seguro da sorte que o esperava, e transpoz a passos vacilantes o portico daquelle recinto, que para elle symbolizava o céo. A despeito dos lisonjeiros e esperançosos sym— ptomas, que lia no rosto radiante de Rozaura, ainda pairava-lhe na mente um resto da duvida e desconfiança, que o assaltára na ves— pera. Era ainda uma alma que chegava ás portas do céo para ser julgada, e bem podia acontecer que fosse precipitada por aquellas escadas abaixo, condemnada aos tormentos do inferno.
Tendo introduzido Carlos no salão, Rozaura retirou-se, e dahi a poucos instantes appareceo Conrado.
— Muito bem, meu caro Carlos, — disse elle ao entrar; —estimo que viesse cedo, como lhe havia recommendado, pois temos muito que conversar.
Aqui estou ás suas ordens, — replicou Carlos, — e ancioso por escutar as interessantes communicaçõcs, que prometteo fazerme. Creia que desde hontem trago o espirito atormentado pela mais viva curiosidade de saber por que maneira Vossa senhoria de um dia para outro tornou-se pae de uma creatura de quatorze annos, revestida de todas as ingenuas graças da infancia, e de todos os encantos da puberdade. A não lhe ter cabido dos céos um anjo, só si vossa senhoria tem a virtude do omnipotente, e creou de sua propria costella de um momento para outro essa nova Eva, como Deos formou a mãe de genero hu- mano, a princeza do paraizo.
— Creio no que me diz, e comprehendo perfeitamente a curiosidade, replicou sorrindo-se o pae do Rozaura. Dentro em pouco sua curiosidade vae ser plenamente satisfeita. Mora longe, o sol está ardente ; deve estar cançado. Tambem cheguei ha pouco da rua, e me acho bastantemente encalmado. Descancemos um pouco, emquanto tomamos algum refresco.
Dahi a instantes entrou um moleque trazendo sobre uma rica bandeja de xarõo copos, garrafas de cerveja e outros refrescos. Tomárão um copo de excellente Bass, e emquanto aspiravão a fumaça de um delicioso havana,
Conrado poz-se a contar ab ovo com toda a minudencia e franqueza a historia de seus amores, as contrariedades que encontrou, a fraqueza, em que cahio, da qual resultou o nascimento de uma filha, cuja existencia até bem poucos dias elle proprio ignorava. Contou tambem toda a historia de Rozaura, como fôra baptisada como escrava pela mulher avara e perversa, em cuja casa fôra exposta, e como tal fôra vendida na edade de dez annos a esse senhor Bazilio, em cuja casa Carlos a tinha conhecido ; como emfim, por um concurso de circumstancias, que parecião encaminhadas pela mão da Providencia, tinha-se chegado em fim ao conhecimento da verdadeira origem da menina, reconhecendo-se publica e authenticamente o seu nascimento livre. Nessa narração porém, alterando certos nomes e mudando para Curitiba o scenario de suas aventuras amorosas, procurava como sempre arredar de sobre a verdadeira mãe de Rozaura a mais leve sombra de suspeita.
Carlos escutava absorto e enlevado a narração de Conrado, como quem ouvia as melodias de um coro angelical. Jamais havia lido paginas de mais delicioso romance em cujo festivo e risonho desenlace ia elle entrar por caminhos juncados das flôres do amor e da felicidade.
— Bem me adivinhava o coração ! — exclamou com expansivo enthusiasmo. Bem me dizia não sei que voz do céo que essa tão formosa e interessante menina não podia ter seu berço na senzala da escravidão Meu espirito revoltava -se obstinadamente contra esse facto, apezar de ser confirmado por um modo, que parecia irrefragavel. A imagem daquelle anjo de celeste pureza e incomparavel formosura parecia afugentar para bem longe de mim a sinistra e aviltante idéa da escravidão. Oh ! é que a verdade, sem que eu o soubesse, penetrava em meu espirito por caminhoso ccultos, e nelle derramava essa luz vaga e mysteriosa, que se chama presentimento.
— Não duvido que assim seja, meu amigo; mas eu infelizmente não sou dotado desse sexto sentido, pois não tive nem o mais leve presentirnento de que tinha uma filha, e essa condemnada ao captiveiro. Deixemo-nos porém de presentimentos por agora, que já não nos são necessarios. Tratemos dos sentimentos. O senhor, que não é de hoje que conhece Rozaura, não acha que ella tem bastante formosura e merecimento? . . .
É incomparavel. O meu amigo possue em sua filha um thesouro inestimavel.
— Estimo muito quo faça della tão elevado conceito. Tambem eu estou me convencendo de que Deos me deo em minha filha uma joia, um thesouro de inestimavel valor.. e é por isso mesmo que ando assustado com medo que m'O roubem.
— Porque diz isso, senhor Conrado?
— Ora porque linda, amavel, rica, não faltarão ladrões que m'a roubem, e eu ficarei orphão da filha, que ha poucos dias os céos me concederão.
— Tem razão, — disse tristemente Carlos, —mais tarde ou mais cedo tem de casal-a com alguem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.