Por Franklin Távora (1878)
A honra de suas filhas, único tesouro, único dote delas e principal orgulho da família, afigurou-se-lhe, não sem razão, ameaçada de iminente desastre. O almocreve esqueceu o sobrado pela palhoça. Naquele estava uma fortuna de grande valor, consistente em jóias, moveis e outros muitos objetos preciosos; nesta havia a pureza de duas graciosas donzelas, que representavam a seus olhos anos de trabalho, de sacrifícios, e de bem querer. Em seu coração, em sua alma, tinham muito mais peso os risos gentis, as graças meigas, o amor modesto, de Marianinha e Bernardina, do que toda a prata, todo o ouro, todos os brilhantes de João da Cunha e de d. Damiana. Victorino desceu a modo de impelido por sopro de tempestade, montou em seu cavalo, que, por cautela, retivera amarrado no vão do sobrado, e por uma aberta que fez na cavalariça pode ganhar os canaviais sem ser visto pelos assaltantes.
Antes de chegar à casa, encontrou-se com Joaquina que já vinha, como louca, em procura dele.
- - Corre, corre, Victorino, que talvez ainda pegues o malvado, o Tunda-Cumbe, que nos vai roubando a nossa filha, gritou a pobre mulher, os cabelos desgrenhados, as faces cobertas de lagrimas, e no semblante os traços violentos do maior desgosto que ela tinha sentido até esse momento na vida. Eu tudo vi da casa grande, disse ele. Miserável!
E logo acrescentou, descobrindo umas cinquenta braças adiante de se o Tunda-Cumbe, já a perder-se de vista, pela veloz corrida do cavalo, por entre o mato com a Bernardina atravessada sobre as pernas:
- Ou tu me matas, ou tu morres!
- Ah! minha filha, minha querida filha! dizia Joaquina, carpindo-se na sua grande aflição. E onde está Marianinha? Ó Marianinha? chamou a agoniada mãe.
Dentre umas moitas emergiu então a alguns passos de Joaquina a rapariga, por quem ela acabava de chamar. Os matos tinham-lhe rasgado a coberta em que se envolvera na ocasião de fugir com medo do malfeitor.
Vinha chorando, e estava pálida, triste, tremula. Do grande susto o coração parecia querer sair-lhe pela boa. Ela semelhava rolinha espantada por tiro de caçador.
- Minha mãe! minha mãe! Que desgraça foi esta?
- Não podia ser maior, minha filha.
- Não fale assim, que ainda pode ser pior, minha mãe!
- Olha. Lá vai o malvado com tua irmã.
E Joaquina apontou para uma baixada, onde nesse momento apareceu o Tunda-Cumbe.
- E lá vai meu pai, lá vai meu pai já a pegar seu Manoel Gonçalves. Oh meu Deus! Que é que me está dizendo baixinho, minha mãe?
- Nada, Marianinha. estou rezando, para que Deus se lembre de nós neste cruel transe.
De repente, aquela mãe e aquela filha, como se tivessem a mesma impressão e a mesma idéia, ou se deixassem vencer pela mesma força intuitiva e fatal, deram alguns passos violentos para diante, com os olhos, para não escrevermos o coração, a alma, postos nos dois cavalheiros que corriam na baixada. Ambas tinham visto o que ia na frente, voltar arrebatadamente o animal e esperar o segundo; tinham visto este atirar-se para aquele com sua arma de fogo em uma das mãos e na outra o facão desembainhado; tinham ouvido a detonação de um tiro, á qual se seguira uma nuvem de fumo que envolveu os dois contendores.
Mas não se meteu muito que as mulheres recuaram espavoridas, levantando alto brado de dor, que atroou todo o deserto. O Tunda-Cumbe acabava de desaparecer no mato com sua presa, enquanto Victorino ficava caído na baixada, estorcendo-se nas convulsões da morte.
XXII
O engenho, que ainda defendido por Victorino, teria de render-se às armas numerosas e práticas dos agressores , não podia, na ausência dele, sustentar-se a não ser por poucos momentos.
De feito não era ainda de todo claro o dia, quando as portas da casa grande abalada em seus fundamentos caiam a poder de machados e por cima delas entravam em borbotões os malfeitores impacientes pelo saque.
Este foi feito com desabrimento incrível. Aquela malta de homens perdidos que, no rancho do Sipó, explorados pelo chefe, se haviam acostumado a odiar os nobres e a cobiçar os seus haveres, deparava enfim, depois de esforços e tentativas malogradas, ocasião oportuna para matar a sede de vingança e ouro que os abrasava. Para quase todos havia sabor especial nesta negra vitoria. A casa, que destruíam, saqueavam e humilhavam, era propriedade de João da Cunha, dentre os nobres o mais odiado, por ser talvez o mais poderoso e vingativo deles. Por isso destroem e aniquilam o que não lhes excita a ambição ou não podem conduzir em seus sacos. Moveis preciosos são jogados das janelas ao pátio, onde se despedaçam. Cada queda, cada destruição serve de objeto a indecentes motejos e dá lugar a indignos comentários. Enfim, longe iríamos se quiséssemos descrever as cenas aviltantes e lastimáveis que dentro de horas se representaram na aristocrática vivenda do sargento-mór.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.