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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.

E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e deleitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de alguns.

Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria de côrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...

Tudo pois estava acabado : nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais que sonhos de brilhante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...

A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.

O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.

A situação era horrivel.

E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incrédula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o

XXVIII.

Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afílicções de um opprobrio irremediavel.

Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.

Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhao-se apagado no coração da infeliz moça.

Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.

E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e deeitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de alguns.

Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria decôrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...

Tudo pois estava acabado: nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais de sonhos de brlllante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...

A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.

O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.

A situação era horrível.

E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incredula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o céo e de encorajar-se com a fé e com o amor de Deus.

No coração do crente nunca se apaga de todo a esperança; o coração incredulo é um negro abysmo, em cujo fundo mora o demonio do desespero.

Esse demonio começava a fazer-se sentir no coração de Juliana.

A scena repugnante e vergonhosa passada no hotel viera naturalmente redobrar os soffrimentos da pobre victima.

A noticia do próximo casamento de Jorge de Almeida, que ella recebera sem manifestar notavel commoção, porque conseguira com um esforço violento suffocar a mais pungente dôr, esgottára todos os recursos da sua vontade.

O que depois e em seguida se passara, abateua, aviltou-a aos seus próprios olhos de modo a fazel-a considerar-se a ultima das mulheres.

Desde então a infeliz vivia a chorar dia e noite, incessantemente.

Juliana tinha chegado a amar apaixonadamente a Jorge de Almeida, e vendo-se tão ultrajada por elle e já tão repellida pelo mundo, tocara o extremo de aborrecer o mundo e de aborrecer a si propria.

O seu padecer era tão acerbo e tão profundo, havia em seu olhar ás vezes desvairado, em suas palavras ás vezes insensatas, em seus modos ás vezes singulares um não sei que de tão sinistro, que Cândida começou a receiar as mais fataes consequencias.

A infeliz mãi seguia e observava cuidadosa sua filha; desejava consolal-a, não sabia que dizerlhe, e limitava-se a chorar com ella.

(continua...)

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