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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Fitou Miguel no semblante de Berta um olhar surpreso. As palavras da menina lhe pareciam remoques; e, todavia, era a voz repassada de tanto afeto e sinceridade! 

 Mais surpreso ficou vendo a efusão de meiguice e ternura que havia no rosto gentil, salpicado quase sempre de graciosa malícia. 

 - Obrigado, murmurou Miguel afastando-se com despeito. 

 - Escute, Miguel, disse Inhá pousando a mão carinhosa no ombro do moço para retê-lo. Você há de gostar de Linda!... Me promete, sim? Você já gosta dela... Há quem possa resistir àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da gente. E a boquinha?... É um torrãozinho de açúcar escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz cócegas no coração! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar tão engraçado, um andar tão faceiro, que encanta! 

 Este esboço, Inhá o fazia ao vivo, e não só com a palavra cintilante, mas com o gesto animado, e o requebro do talhe esbelto. Era ela a própria cera, da qual a sua mímica ia esculpindo a estátua famosa de Linda, com as doces inflexões das formas, o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso. 

 Miguel fascinado, rendido, já não resistia com efeito; e nesse momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha diante dos olhos, e não a outra que vira ao natural, tímida, com as pálpebras cerradas, o lábio trêmulo, e o gesto constrangido. 

 A mulher que ele adorava nos sonhos de sua juventude, o tipo de sua ardente imaginação, realizava-se naquela moça que vazara a inefável ternura de Linda na graça e gentileza de Berta; e não era uma nem outra, mas a transfusão dessas duas almas em uma beleza sedutora. 

 Preso dos olhos ao lindo semblante da menina, e suspenso de seu lábio gazil e mimoso, foi Miguel seguindo-a, sem consciência do que fazia. 

Próximo à casa ouviu Berta uns risos e cochichos por trás da folhagem; e disfarçando para não despertar as suspeitas de Miguel, aproximou-se da ramada, donde ela pressentira que a estavam espreitando. 

 E não se enganava. Linda, impaciente com a ausência de Berta, não vendo chegar Afonso que fora em busca da travessa, tinha saído de casa a pretexto de passeio, com o fito de descobrir alguma coisa. 

 Em caminho encontrou o irmão, que recobrado já do acanhamento, ardia por dar expansão ao gênio alegre, por um instante sufocado. Escondeu-se o folgazão do Afonso com Linda para espreitar o que diziam Berta e Miguel. 

 Tão embevecido estava este na magia do sorriso da companheira, que apesar de caçador, não percebeu o farfalhar das folhas agitadas pelo buliçoso rapaz e o sussurro dos segredinhos de Linda no ouvido do irmão. 

 Então, disse Berta para Miguel: confesse, você gosta de Linda? 

 - Gosto! respondeu o moço com um sorriso. 

- Muito? 

 - Muito! 

 Voltou-se Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo o vulto de Linda: 

 - Não lhe disse, Linda? Veja que não a enganei. 

 Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda através do sorriso fascinador de Inhá. 

 Dirigiram-se todos à casa. Berta com o braço passado à cintura de Linda, achava meio de aproximar a amiga a cada instante de Miguel, entrelaçando as mãos de ambos. 

 O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confusão de que se aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria unir. 

 Assim chegaram à casa, onde já se aprestava o suntuoso banquete. 

 

XVI  

São João 

 

No terreiro das Palmas arde a grande fogueira. 

 É noite de São João. 

 Noite das sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos. 

 Noite das ceias opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos outros regalos. 

 Noite, enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros e estrepolias. 

 Outrora, na infância deste século, já caquético, tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos comilões e dos meninos, que arremedavam uns e outros. 

 As alas da labareda voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas que farfalham ao vento na riçada cabeça de linda caipira, derramam pelo terreiro o prazer e o contentamento. 

 Não há para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da labareda, nas faíscas chispando pelos ares, nas vivas ondulações da chama a crepitar, há como um riso expansivo que se comunica à nossa alma e influi nela uma trepidação brilhante. 

 A luz é a vida; mas a chama é o júbilo, a cintilação do espírito. 

 Formosa perspectiva tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim iluminada pela fogueira. 

 Uma linha de jeribás corre-lhe em frente, moldurando com as verdes arcadas a volta das janelas, o que dá ao edifício graça e chiste especial; pois enfeita a simples arquitetura com os florões e recortes das palmeiras. 

 A meio terreiro, de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros, pintados com listrar de escarlate e branco, traçadas em espiral. 

 No tope do outro mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca de pano, naturalmente cheia de pólvora. 

(continua...)

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