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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

O vestido de Aurélia encheu a carruagem e submergiu o marido; o que ainda lhe aparecia do semblante e do busto ficava inteiramente ofuscado pela deslumbrante beleza da moça. Ninguém o via; todos os cumprimentos, todos os olhares, eram para a rainha, que surgia depois de seu passageiro retiro. 

O carro parou em diversas casas, indicadas na nota que o cocheiro recebera. Seixas oferecia a mão à mulher para ajudá-la a apear-se, e a conduzia pelo braço à escada, que ela subia só, pois precisava de ambas as mãos para nadar nesse dilúvio de sedas, rendas e jóias, que atualmente compõe o mundus da mulher. 

Aí como na rua, todas as atenções eram para Aurélia, que as senhoras rodeavam pressurosas, e os homens fascinados por sua graça. Seixas apenas recebia um pálido reflexo dessa consideração quanto exigia a estrita urbanidade. Houve casa, onde no afã de acolher a mulher, o deixaram atrás, despercebido como um criado. 

Em outras circunstâncias, aquela anulação de sua individualidade, bem pode ser que não o incomodasse. Talvez se reparasse bem nela, fosse para desvanecer-se de ser o preferido dessa formosa mulher, cercada da admiração geral e disputada por tantos admiradores. Todo esse culto que lhe prestava a sociedade, não seriam a seus olhos senão o tributo a ele oferecido pelo amor de sua mulher. 

Mas as condições em que se achava, deviam mudar completamente a disposição de seu ânimo. Quanto mais se elevava a mulher, a quem não o prendia o amor e somente uma obrigação pecuniária, mais rebaixado sentia-se ele. Exagerava sua posição; chegava a comparar-se a um acessório ou adereço da senhora. 

Não tinha dito Aurélia naquela noite cruel, que o marido era um traste indispensável à mulher honesta e que comprara para esse fim? Ela tinha razão. Ali, naquele carro, ou nas salas onde entravam, parecia-lhe que sua posição e sua importância eram a mesma, senão menor, do que tinha o leque, a peliça, as jóias, o carro, no traje e luxo de Aurélia. 

Quando oferecia a mão àquela mulher para apear-se, ou levava no braço a manta de caxemira, considerava-se a igual do cocheiro que dirigia o carro e do lacaio que abria o estribo. A única diferença era serem aqueles serviços dos que os cavalheiros geralmente prestam às senhoras; e que só em falta desses recebem elas de um criado mais graduado. 

Uma das últimas visitas foi à família de Lísia Soares, que se dizia amiga mais íntima de Aurélia, quando solteira. 

Depois dos cumprimentos e felicitações, quando a conversa vacilava à espera de um tema, a Lísia que era maliciosa lembrou-se de soprar uma faísca. Não podia haver para ela maior prazer do que o de picar Aurélia cujo espírito muitas vezes a tinha beliscado. 

- Lembra-se, Aurélia, quando você fazia a cotação de seus pretendentes? disse a maligna alteando a voz para ser bem ouvida. 

- Se me lembro! Perfeitamente! respondeu Aurélia sorrindo. 

- E o que me disse uma noite a respeito do Alfredo Moreira? Que valia quando muito cem mil cruzeiros; mas que você era muito rica para pagar um marido de maior preço.

- E não disse a verdade? 

- Então o sr. Seixas?... interrogou Lísia com uma reticência impertinente que estancou-lhe a palavra nos lábios, para borrifar a malícia no sorriso e no olhar. 

- Pergunte-lhe! disse Aurélia voltando-se para o marido. 

Nunca, depois que se achava sob o jugo dessa mulher, ou antes da fatalidade que o submetia a seus caprichos, nunca Seixas precisou tanto da resignação de que se revestira para não sucumbir à vergonha de semelhante degradação. O primeiro abalo produzido pelo diálogo das duas amigas foi terrível; e não o perceberam, porque a atenção geral convergia para Aurélia nesse instante. 

Dominou-se porém; quando os olhares acompanhando o gesto da mulher voltaram-se para ele, encontraram-no calmo, naturalmente grave e cortês, embora ainda lhe restasse uma ligeira palidez em que ninguém reparou. 

- Então, sr. Seixas, é certo? insistiu Lísia. 

- O que, minha senhora? perguntou o moço por sua vez e com a maior polidez.

- O que disse Aurélia. 

- Não vês que é um gracejo! observou a mãe de Lísia. 

- Ela foi sempre assim, amiga de brincar! disse uma prima. 

- Não querem acreditar!... tornou Aurélia com um modo indiferente. 

- É sério, sr. Seixas? perguntou Lísia novamente. 

- Responda! disse Aurélia ao marido, sorrindo-se. 

- Da parte de minha mulher eu não sei, e só ela poderá dizer-lhe, D. Lísia. Quanto a mim asseguro-lhe que me casei unicamente pelo dote de cem mil cruzeiros que recebi. Devo crer que minha mulher mudou de idéia em que estava, de pagar um marido de maior preço. 

A sisudez com que Seixas pronunciou estas palavras e porventura também certa aspereza do timbre que percebia-se na fala harmoniosa, como sente-se a aspa de ferro sob o estofo de cetim, deixaram as pessoas presentes perplexas acerca do sentido e crédito que deviam dar a semelhante asseveração. 

Nisto ressoaram os trilos cristalinos da risada de Aurélia. 

(continua...)

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