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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Era um boi astuto e manhoso, o Dourado. Êle sabia que estava cercado, e embora não tivesse perdido a esperança de escapar-se, contudo receava encontrar por diante homens armados de varas que lhe embargassem o passo. Assim tinha por mais prudente cansar primeiro os cavalos e para isso fingia-se êle estafado, a fim de exercitar os campeadores a apertar a carreira na esperança de o pegar. 

Entretanto, D. Flor aproximara-se de Arnaldo. A donzela, como sua mãe, não tinha agradecido ao mancebo o ato de destreza com que lhe salvara a vida. Era isso um fato natural, e que não lhes granjeara nenhuma gratidão; ambas conheciam a dedicação do filho da Justa, e recebiam dele essas provas de amizade, como as receberiam de um parente, de uma criatura sua. 

A donzela, porém, lembrou-se que Arnaldo conservava um ressentimento dela, desde a noite do mimo, em que talvez fôra injusta; e aproximou-se para com uma palavra meiga e afetuosa aplacar seu ânimo suscetível e ríspido. 

Mas no momento em que chegava a seu lado, Arnaldo arrancando o cardão em um salto, disparava pela colina abaixo, soltando êsse brado pujante, que o sertanejo aprendeu do índio, seu antepassado. 

Êsse brado é como o rugido do rei do deserto; êle tem a fereza do bramir do tigre, e a vibração do rugir do leão; mas quando repercute na solidão sente-se que há nessa voz uma alma que domina a imensidade. 

Que sentimento impelira assim o sertanejo? Fôra o receio de que o Fragoso triunfasse, ou o desejo de subtrair-se ao agradecimento de D. Flor? 

Talvez um e outro motivo. 

 

V – A carreira 

 

Quando o Dourado ouviu o brado de Arnaldo, conheceu que tinha homem em campo; e abrindo então a carreira, em dois corcovos deixou o Fragoso a uma grande distância. 

O mancebo perdera a esperança de agarrar o boi; e atribuindo a derrota ao grito que espantara o animal, irritou-se contra o autor dessa picardia, que no primeiro momento suspeitou provir de seu primo Daniel Ferro. 

Logo, porém, reconheceu o engano. Um cavaleiro passou por êrle à desfilada; e a-pesar-da velocidade da carreira pôde ver o rosto de Arnaldo, que o ódio lhe gravara na memória. 

Desde então o Marcos Fragoso continuou a correr, mas já não era atrás do Dourado, e sim atrás do sertanejo, contra quem se arrojou com todo o ímpeto das cóleras, que o seu afeto por D. Flor o tinha obrigado a recalcar durante os últimos dias, e que afinal faziam explosão. 

Voltando o rosto, viu Arnaldo na fisionomia e no gesto do capitão a expressão de seu rancor, e respondeu-lhe com um sorriso de desprêzo. 

— Não fujas, cobarde! exclamou Fragoso. 

— Havemos de encontrar-nos. 

— É agora, neste momento, que eu vou castigar a tua insolência. 

— Havemos de encontrar-nos, sr. capitão; mas quando eu quiser, e for de minha vontade. Antes disso não conheço o senhor; e os seus gritos, são como os berros dêstes novilhos, que ainda não sabem urrar. 

O sertanejo, que refreara um tanto a corrida do cardão para lançar estas palavras, de novo desfechou atrás do Dourado, o qual devorava o espaço. 

O capitão-mór, Daniel Ferro e Agrela, que já vinham atrasados, com a chegada do Arnaldo perderam a esperança, não só de agarrar o boi, no que não pensavam mais, como de seguir-lhe a pista. Resolveram, portanto, parar em um alto, para acompanharem com a vista a corrida. 

O mesmo faziam na colina D. Genoveva, Flor, Alina, e o Padre Teles, com João Correia e Ourém, que tiveram por mais prudente trocar o papel de atores daquela campanha sertaneja pelo de espectadores. 

O último não perdeu ensêjo de encaixar a sua citação dos Lusíadas. Quando chegavam à falda da colina gritou êle para o companheiro: 

 

Olá Veloso amigo, aquele outeiro

É melhor de descer que de subir. 

 

O capitão-mór estava de não caber em si, com a satisfação e contentamento de que o enchera o Arnaldo. Desassombrado do receio de que o Fragoso, um rapaz lá de Inhamuns e de mais e mais gamenho da cidade, agarrasse o corredor de maior fama do Quixeramobim e levasse as lampas aos campeiros daquele sertão, o dono da Oiticica já contava como certa a proeza de seu vaqueiro; e entusiasmava-se de antemão como êsse triunfo, que lhe pertencia, pois êle o alcançava na pessoa de uma criatura sua, que era como o seu braço. 

Era uma corrida vertiginosa aquela. Os olhos não podiam acompanhá-la sem turbarem-se; porque boi e cavaleiro fugiam instantaneamente à vista que os fitava. 

O capitão-mór bradava com uma voz de canhão: 

— Assim, Arnaldo! Aguenta, rapaz! 

O Daniel Ferro entusiasmado também com a valentia do boi e o arrôjo do campeador, gritava: 

— Ecou! Ecou!… Arriba, vaqueiro! 

Agrela assistia à luta em silêncio, mas agitado por vários sentimentos. Invejava a façanha de Arnaldo e volvia um olhar melancólico para o sítio onde estava Alina; mas se brotou em seu coração alguma vaga esperança de ver frustrado o esfôrço do sertanejo, logo a sufocou a sincera admiração que inspiravam-lhe a fôrça e a destreza. 

(continua...)

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