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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Oh! não! respondeu a “Bela Órfã”; é que hoje não estou boa... sinto um calor que parece febre; preciso respirar ar puro e livre. E dirigiu-se de novo à janela... ninguém vinha. Esperou cerca de dez minutos; mas sempre debalde.

A pobre moça sentiu então uma dor nova para ela; apertou-se-lhe o coração, como se uma mão de ferro a estivesse comprimindo com os dedos; e não podendo suportar o ruído que na sala reinava; parecendo-lhe as risadas que ouvia, os gracejos que se diziam, as músicas que se cantavam, e os olhares que lhe lançava Salustiano, um insulto feito à sua dor, aproveitou um momento de distração geral, e saindo da sala sem ser sentida, subiu para seu quarto, e atirando-se no leito, começou a chorar.

No entanto, Henrique havia oferecido o braço a Mariana, e passeavam conversando.

Chegaram-se ambos para uma janela, e vendo-se a sós Henrique falou à bela viúva:

– Minha senhora, eu precisava falar-lhe a sós sobre um objeto de grande importância para nós ambos, julgará oportuno este momento?...

– Posso eu dar uma sentença sobre causa que não conheço? perguntou gracejando Mariana.

– Não haverá gracejo nem puerilidade no que eu devo dizer, tornou Henrique com tom sério.

– Mas é que eu não sei sobre o que devemos tratar.

Oh!... senhora!... será possível que não adivinhe qual será o objeto de que lhe quero falar?... não lho diz o coração há seis anos?...

– Para aqueles que se amam, disse Mariana abaixando a cabeça e a voz, todos os momentos e todos os lugares são oportunos e propícios.

– Então eu falo; e depois que eu falar, é que realmente ouvirei uma sentença.

Mariana levantou os olhos e viu a expressão apaixonada e séria do semblante de Henrique.

– Eu não lembrarei o passado, disse o mancebo: é a história de uma luta desesperada entre o dever e o amor, que eu não quero recordar, porque ainda me causa terríveis angústias...

– Oh! lembremo-lo sempre!... a sua memória é doce porque não desdoura... foi um amor do espírito.

– Embora... mas se quiser, eu o lembrarei somente para dizer que esse amor que resistiu ao dever, que não morreu na ausência, é um amor que deve ser bem caro, senhora!...

– E tem ele sido mal pago, senhor?... nessa luta entre o dever e o amor, sofreria menos a mulher, para quem o amor é sempre mais ardente, e o dever era dobradamente maior?...

– E agora, senhora?... agora, que não há mais barreiras levantadas diante desse terno sentimento?...

– Agora?...

– Sim, agora?...

– Aceite como resposta, senhor, a mesma pergunta que acaba de fazer-me.

– Oh! pois bem; mas o que vemos na sociedade?... quem é que se apressa a desejar prender-se por laços sagrados?... é porventura o homem, que pode esperar dez anos sem perder na opinião dos outros homens?...

– Que quer dizer, senhor?...

– Quero dizer, minha senhora, que acreditando em suas palavras, julgando-me feliz e amado, eu me espanto de que a mulher que me ama, e que tem a certeza de ser por mim idolatrada, livre, tão senhora de sua mão como de seus pensamentos, não se lembrasse uma só vez ainda de me estender essa mão há tantos anos desejada, dizendo-me: – ei-la aqui!

– Ah! senhor!...

– Quero dizer que tenho pensado comigo mesmo sobre a causa provável dessa frieza, e seguramente há erro em todos os meus juízos. Pensei, eu o confesso, senhora, que eu podia ter sido o objeto de uma zombaria de seis anos... que o amor, em que acreditava, era fingido...

– E teve duas vezes esse mesmo pensamento?... perguntou Mariana, deixando cair duas grossas lágrimas.

Henrique não viu felizmente as lágrimas da viúva.

– Não... não... esse pensamento duas vezes concebido seria capaz de matar-me; esse pensamento foi certamente uma loucura; mas como essa, mil outras loucuras me vieram à cabeça, e finalmente uma, que foi a pior de todas, que é horrível!...

– Mas por felicidade nossa, senhor, não passará também de uma loucura.

– Pensei, disse Henrique voltando os olhos para a sala, que havia no mundo um homem que se opunha à minha dita... e que a mulher que eu adoro, obedecia à sua voz e tremia debaixo de seus olhos!

Henrique encarou Mariana como querendo apanhar-lhe no rosto, no tremer convulsivo de um músculo, ou no espanto do olhar, um segredo que ela guardasse; mas apenas viu raiar nos lábios da interessante viúva o mais feiticeiro dos sorrisos.

Com serenidade, sangue frio e graça respondeu Mariana em tom alegre:

– Quando eu dizia que era ainda uma loucura!...

– Uma loucura somente?... uma quimera, e mais nada.

– Sim... sim; somente uma loucura; mas uma doce loucura, que me agrada, porque a sua origem me é grata.

– Deus permita que eu fosse realmente um louco!

Apesar da serenidade que afetava, a viúva sentia-se terrivelmente combatida interiormente pelas suspeitas de Henrique; a todo transe quis saber até onde tinham elas chegado.

– Porém, disse ela, para que ficar assim apenas conhecido por metade o juízo que fez a meu respeito?... arrependo-me de o haver interrompido.

(continua...)

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