Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

O Passos ganhava muito pouco na sua loja, e creio que só a mantinha como centro de reunião diária de amigos políticos, e porque não pagava aluguel da casa, que era de sua propriedade.

As desilusões políticas, o desgosto profundo que lhe causou o ver que alguns dos liberais e republicanos, em quem muito confiara, tinham quase de súbito desertado para os arraiais conservadores, levaram o Passos a pensar mais seriamente nos cuidados que exigiam as suas erisipelas, a fechar a loja e a vender a casa a M. Décap.

E ainda bem que ninguém pôde dizer ao velho Passos:

- Faites des perruques.

Quando M. Décap comprou a casa do nosso amigo Passos, já se achava estabelecido com a sua loja de modas, creio que no pavimento térreo da casa onde floresceu o Hotel Damiani; de modo que não foi preciso senão atravessar a rua, indo quase de um salto ocupar o seu teto próprio.

Que mudanças e que conquistas efetuadas em menos de um quarto de século!...

A loja de modas Notre Dame de Paris, que começou com uma porta e duas vidraças na antiga casa do Passos, tem hoje doze (contadas as portas e as vidraças) abrindo-se para a Rua do Ouvidor; as casinhas térreas transformaram-se em vistoso sobrado, cuja frontaria é iluminada na linha superior por numerosa série de bicos de gás.

E não pára aia história.

Não podendo (por ora) levar além suas conquistas à direita e à esquerda na Rua do Ouvidor, M.Décap avançou pelo fundo em direção à Sé Velha ou à Igreja do Rosário, e diante dela abriu saída de importância estratégica com uma fortaleza de portão de ferro. Finalmente (por ora), o insaciável conquistador acaba de realizar, com hábil marcha de flanco, novo aumento de domínios laterais, que abrem atrativa comunicação com a Praça de S. Francisco de Paula, para a qual apresenta gracioso chalet.

Em falta de espaço para jardins, o vasto sobrado da loja é um tecido de labirintos, onde os estranhos e curiosos importunos perder-se-ão sem achar fio da Ariadne.

A loja Notre Dame de Paris, bem que não seja exclusivamente de fazendas e de modas francesas para senhoras, é, contudo, principalmente atraidora do belo sexo, e representa no seu imenso mundo capital avultadíssimo, que deve vencer juros pagos pelos consumidores e consumidoras; além disso, a loja contém e alimenta numerosa população de empregados de escritório, de caixeiros às dezenas, de modistas e costureiras em número elevado, de serventes e criados todos vencendo honorários e aluguéis.

Calculem a despesa do estabelecimento que aliás floresce e se agiganta!... que soma de contos de réis gastos anualmente com essa população!...

Calculem o que ganham em seu comércio as muitas outras, embora menos gigantescas, lojas de modas da Rua do Ouvidor, e hoje de outras ruas.

Calculem e façam idéia do que custam a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...

Porque em cada corte de seda, em cada toilette, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!...

Minhas belas e excelentíssimas leitoras, que devo confessar a mais incontestável verdade: as modas, o luxo, a chamada elegância das senhoras custam muito caro!... mas também juro e sustento que as senhoras merecem isso e muito mais; têm direito de educação maldirigida, imposta, porém, pela sociedade despótica e opressora do sexo feminino e esses sacrifícios materiais, que são em geral enfeites, flores e fantásticos artifícios, adornadores fictícios, efêmeros, pobres compensações da escravidão da mulher em nossa vida e em nossos costumes sociais.

Portanto bem podia haver ainda mais duas dúzias de lojas de modas como a de Notre Dame de Paris na cidade do Rio de Janeiro sem que o sexo feio tivesse o direito de queixar-se dos tributos que paga à vaidade do belo sexo.

Quanto a mim, a loja de modas Notre Dame de Paris só apresenta possíveis inconvenientes na grande extensão dos seus domínios que acabaram por tornar indispensável aos seus fregueses conhecimento exato de sua carta topográfica.

E vem aqui a propósito a história ingênua que prometi contar.

D. Elvira tem apenas 16 anos de idade e está casada há quatro meses. Alexandre de Menezes, o escolhido do seu coração, jovem bonito e rico que ainda vai completar os seus 22 anos.

Duas crianças, noivos, que passam a lua-de-mel a brincar, dois namorados que vivem em doces enlevos a acariciar-se mutuamente. Elvira e Alexandre ainda não podem separar-se durante uma hora sem saudades.

O mais ligeiro incidente, um espinho de roseira que no jardim prenda passageiramente o vestido de Elvira, sobressalta Alexandre, temeroso de algum arranhão no pé ou no braço da esposa: esta, se uma abelha morde a bela fronte do noivo, se aflige, e maldiz das flores que atraem as abelhas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6061626364...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →