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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Da ponta da barra de Jaguaripe ao rio de Juquirijape são quatro léguas ao longo do mar, à feição de enseadas, quase pelo rumo de norte e sul, cuja terra é baixa e fraca, com pouco mato, pelo qual atravessam das campinas quatro ribeiras de pouco cabedal, a qual terra não serve para mais que para criações de vacas. Este rio de Juquirijape tem a barra pequena e baixa, por onde não podem entrar mais que caravelões de costa por ter uma légua na boca que a toma toda; da barra para dentro até a cachoeira é muito fundo, por onde podem navegar navios de cem tonéis e de mais; e de uma parte a outra pode haver quatro léguas. Este rio é tão formoso como o de Guadiana, mas tem muito mais fundo; e tem, indo por ele acima, de uma banda e da outra até duas léguas, a terra fraca e pela maior parte de campinas, com muitos alagadiços, terra boa para vacas; e tem, indo por ele acima mais avante dois esteiros, nos quais se podem fazer dois engenhos.

Do esteiro mais do cabo, para a banda da cachoeira uma légua toda de várzea, e terra mui grossa para canaviais; da outra banda é a terra mais somenos, e junto desta cachoeira se vem meter uma ribeira com grande aferida, onde Gabriel Soares tem começado um engenho, no qual tem feito grandes benfeitorias, e assentado uma aldeia de escravos com um feitor que os manda. Na barra deste rio tem uma roça com mantimentos, e gente com que se granjeia. Este rio é muito provido de pescado, marisco e muita caça, e frutas silvestres.

Da barra de Juquirijape ao curral de Sebastião da Ponte serão cinco léguas ao longo do mar, tudo despovoado em feição de enseada, onde se metem três ribeiras que nascem nas campinas desta terra, que não servem para mais que para criação de vacas. Toda esta praia e costa no inverno é mui desabrigada até a barra de Jaguaripe, onde o tempo leste e lés-sueste é travessia, e toma aqui os caravelões da costa que se metem por esta barra, e eles não acertam com a boca de Juquirijape para recolherem dentro, não têm outro remédio senão varar em terra, onde não há perigo para as pessoas por ser tudo areia. Este curral de Sebastião da Ponte está numa ponta saída ao mar com o rosto no morro de Tinharé, da qual vai fugindo a terra para dentro, fazendo uma enseada até o rio Una, que será três léguas todas de praia. Por este rio entra a maré mais de duas léguas, no cabo das quais está situado o engenho de Sebastião da Ponte, que tem duas moendas de água numa casa que mói ambas com uma ribeira, o qual engenho é mui grande e forte, está mui bem fabricado de casas de vivenda, de purgar e outras oficinas, com uma formosa igreja de S. Gens, com três capelas de abóbada; e por este rio Una vivem alguns moradores que nele têm feito grandes fazendas de canaviais e mantimentos.

C A P Í T U L O XXXI

Em que se explica a terra do rio Una até Tinharé, e da ilha de Taparica com outras ilhas.

Da boca do rio Una a uma légua se mete no mar outro rio, que se diz Tairiri, pelo qual entra a maré duas ou três léguas, onde Fernão Rodrigues de Sousa fez uma populosa fazenda com um engenho mui bem acabado e aperfeiçoado, com as oficinas acostumadas e uma igreja de Nossa Senhora do Rosário muito bem concertada, onde tem muitos homens de soldo para se defenderem da praga dos aimorés, que lhe fizeram já muito dano. E tornado à boca deste rio, que está muito vizinho da ilha de Tinharé, de onde vai correndo até o morro, fazendo uma enseada de obra de três léguas até a ponta do morro, onde se acaba o que se entende a Bahia de Todos os Santos. Esta ilha faz abrigada a esta terra até a ponta do Curral, por ser a terra alta, a qual é fraca para canaviais, onde vivem alguns moradores, que nela estão assentados da mão de Domingos Saraiva, que é o senhor desta ilha, o qual vivia nela e tem aí sua fazenda com grandes criações e uma ermida onde lhe dizem missa. Da boca deste rio de Tairiri a esta ilha pode ser um tiro de falcão. No mar que há entre esta ilha e a terra firme, há grandes pescarias e muito marisco, onde por muitas vezes no inverno lança o mar fora nesta ilha e nas praias de defronte até o Juquirijape âmbar gris muito bom.

Tornado à ilha de Taparica, de que atrás se faz menção pela banda de Tinharé, não tem porto aonde se possa desembarcar, por ser cercada de baixos de pedra, aonde o mar quebra ordinariamente, a qual, pela banda de dentro da baía, tem muitos portos, onde os barcos podem desembarcar com todo tempo. Tem esta ilha, pela banda de dentro, grandes pontas e enseadas, onde com tormenta se recolhem as embarcações que vêm das outras partes da baía para a cidade.

(continua...)

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