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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

De resto a Maria não lhe dava muito cuidado. A princípio ainda lhe fizera uns carinhos, dera-lhe uns cortes de chita e um rico vestido de cassa da Índia “para agradar”, porque também seria uma ingratidão vê-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma. Achava até que tinha feito muito. Outros havia piores do que ele, ora!

— Meu bem, tristezas não pagam dívidas. É andar, é andar sem olhar para trás.

Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenhe, que sentia “uma coisa” bulir-lhe na barriga, João estremunhou. — Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade. Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sítio, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma. Dá-se tanto disto...

— E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do lenço, cabisbaixa.

— E depois? E depois... ora adeus! e depois dá-se a alguém para criar o trambolho e tu voltas à tua santa vidinha.

Maria soluçava baixo, fungando numa crise nervosa.

— Já te pões a chorar como uma criança! Tolice! Estou a dizer-te que o caso é muito simples.

Uma tarde em que os Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Trilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca. — Sabem quem está muito doente?

Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. — Não, ninguém sabia. Algum conhecido?

— O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há pouquinho. A rua está cheia.

Diz que está bem mal.

— De quê, menino? interrogou o juiz muito admirado e já nervoso.

Houve logo um interesse comovido nos circunstantes.

E João, sentando-se, sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizendo o que sabia: — Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos, menos o Dr. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mesa a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal — embrulho no estômago, tonteira, calafrios.

Imediatamente, ergueu-se lívido, e, ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!

— Ai! fez D. Terezinha cruzando as mãos sobre o regaço. E depois?

— Depois conduziram-no à cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta...

João fez esgares de nojo. Todos cuspiram.

— ... E quando os médicos chegaram já o encontraram sem pingo de sangue no rosto, vomitando ainda golfadas de bílis sobre a esposa que o amparava, coitada, nem sei mesmo como...

— Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras.

Maria do Carmo ouvia silenciosa e compungida a narração do padrinho, ao lado do piano, com os olhos úmidos e o ar assustado.

— Mas, João, isto é sério? perguntou o juiz municipal erguendo-se com os braços cruzados, estupefato.

— Oh! senhor, pois eu havia de inventar uma coisa desta? Admiro até como vocês ainda não sabiam, porque a rua está cheia. Eu soube ali, na bodega do Zé Gato.

Fez-se um silêncio repassado de suspiros.

— Um homem tão forte, vendendo saúde! fez o juiz.

— Mas bebia muito, coitado, tornou João da Mata respirando com força. Era homem que não bebia água!

— Por isso não, atalhou D. Terezinha. Que asneira! Tanta gente se embriaga todos os dias e não lhe sucede nada...

— Daí pode ser que escape, murmurou D. Amélia; não queriam sepultar o homem em vida.

— Pode ser...

— Pode ser, repetiu o juiz. A ciência faz milagres. — Que dúvida!

Então o Mendes tomando o chapéu, muito impressionado, as mãos trêmulas:

— Bem, vamo-nos Amélia. Esta vida, esta vida!

Era cedo, insistiu D. Terezinha triste. Mas os Mendes pretextaram afazeres, lembraram as crianças que tinham ficado com a criada e despediram-se.

Maria do Carmo passou a noite nervosa, com insônias, sentida com a doença do Dr. Castro, muito apreensiva.

(continua...)

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