Por Inglês de Sousa (1891)
Não fossem lá pensar que Macário era inimigo da rusticidade campestre, uma vez na vida! Quando amanhecera, já na corrente principal do grande rio, apertado pelas altas ribanceiras que o impedem de invadir todas as terras, padre Antônio gritara aos rapazes que remassem, porque o céu ameaçava tempestade. Macário olhara para o céu. Uma nuvem negra vinha vindo do sul, e com grande velocidade crescia para todos os pontos, alastrando como um borrão de tinta. A perspectiva não era das mais risonhas. Às duas horas da tarde, quando mais intenso era o calor, desencadeou-se a borrasca, mas, por felicidade, já se achavam da outra banda. Como a chuva fora muita, houvera idéia de procurar um abrigo. Não havia ali sítio algum, mas à beira do rio, a meio escondida entre as árvores, uma maloca abandonada erguia-se sobre quatro paus roliços e toscos. Ali desembarcaram. Padre Antônio recebera alegremente o contratempo, como uma provação mesquinha em comparação com o que esperava sofrer na sua excursão evangelizadora. Os canoeiros pareciam indiferentes, aproveitavam a folga obrigada do resto do dia e da noite, sob o reles abrigo da maloca, pacatamente acocorados ao pé do lume improvisado com ramos secos, bebendo chibé e fumando. Macário não estava contente. Não, não estava. Deitado no chão úmido da palhoça, ouvindo a chuva cair torrencialmente durante a tarde e a noite, pensava que se aquelas bátegas de água estivessem lavando as telhas do presbitério de Silves, e ele, Macário, atravessado na boa rede branca, que herdara do defunto vigário, uma doce enfiada de sonhos, provocados pela vizinhança da Luísa Madeirense, teria povoado agradavelmente o sono repousado.
A viagem continuara por três longos dias, depois de terem, à boca do Ramos, encontrado um regatão de nome José de Vasconcelos, que lhes ensinara o caminho para chegar ao grande rio Abacaxis, enfiando pelo extenso e piscoso furo de Uraná. O descontentamento do Macário crescia, com a diminuição constante de víveres que lhe punha em risco a reputação de previdente e arranjado. Faltava principalmente a farinha porque o malditos tapuios não perdiam ocasião de esvaziar grandes cuias de chibé, fazendo consistir a sua alimentação quase exclusivamente nessa mistura refrigerante de farinha com água de que o sacristão também gostava principalmente com açúcar - mas se privava estoicamente, pensando no tempo a gastar na volta. Não se renderam os rapazes às razões com que o vigário lhes recomendava não abusassem do chibé - mas como o sacristão fosse
cautelosamente pondo a farinha a bom recado, começaram a espreguiçar-se, a fazer pausas longas, e a olhar atentamente para o céu, na esperança de nova tempestade que lhes proporcionasse o apetecido descanso ao abrigo de alguma das malocas da beirada.
Seria talvez tempo de proferir a palavra eficaz que devia determinar a volta da igarité às margens pacatas do lago Saracá? Macário hesitava, receando o desapontamento de padre Antônio de Morais, embebido na contemplação ardente e entusiástica daquelas árvores sem frutos, daqueles cipós intrincados, daquela massa de água intérmina e monótona. O vigário não falava, quase não se movia, passando a maior parte do dia sentado sobre a coberta da tolda, expondo-se ao sol tórrido do Amazonas, com risco de alguma febre. Comia muito pouco, ao contrário do que lhe sucedia de costume. Seria fastio do pobre pirarucu e da carne salgada do farnel, ou, na contemplação da natureza virgem, esquecera as necessidades corpóreas! Havia na sua fisionomia uma resolução tal que Macário sentia-se sem coragem de proferir a palavra fatídica que o devia arrancar àquele sonho perigoso. Que sucederia quando o padre se visse impossibilitado de prosseguir na empresa? Padre Antônio era um homem delicado, cortês, manso, falando baixinho e doce, mas desde que se lhe metera nos cascos a idéia de converter selvagens parecia transformado. Um receio vago apoderava-se do coração de Macário, obrigando-o a contemporizar, a adiar a volta. Entretanto a brincadeira já se ia mudando em maçada. Quatro noites contara ele pelos dedos, e cinco dias já se iam passando, que se achavam ali no duro estrado daquela igarité, sentindo as pernas entorpecidas pela falta de exercício, e o estômago a acusar as saudades da carne verde e do pão fresco. Os víveres escasseavam, teriam de ver-se em breve reduzidos a duras privações, muito fora de propósito naquela viagem que ele imaginara toda de passeio e de prazer. Era tempo de proferir a grande palavra, arrostando com a zanga de padre Antônio de Morais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.