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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Quando algum comboieiro lhe cedia, de graça, a metade da sua borracha d'água salobra, recusando a pródiga paga por não ter ânimo de vendê-la a cristãos, Marcos, superior às dores físicas, sorria de alegria de ver saciadas e salvas da morte horrível as criaturas idolatradas e o fiel animal, e apenas umedecia os lábios e sentia alentarem-se-lhe as indômitas energias para chegar ao termo da dolorosa viagem pelo sertão combusto.

— Deus é grande! – exclamava, em arroubos de fé inquebrantável. – Coragem, mulher, ânimo filhinha!... Vamos para adiante, parar aqui é morrer!... Mais alguns dias, estaremos salvos!...

A salvação estava em Sobral, na cidade formosa e opulenta, o oásis hospitaleiro anelado pelas caravanas de pegureiros esquálidos.

E chegaram, padecendo todas as inclemências da jornada, caminhando à noite para evitarem a torreira do sol. Por inculcas, souberam que no subúrbio da cidade, poderiam encontrar um rancho, modesto abrigo, onde pudessem esperar dias menos aflitivos.

A casa mal-assombrada era quase uma, tapera. O repuxo das paredes; os esteios esconsos, cobertos de colmeias abandonadas; o tecto, velado sob empoeiradas colgaduras de teia de aranha; o telhado desfalcado, invadido de ervas mortas; as portas emperradas e o chão, aluído por túneis de formigueiros, sinalavam longo abandono. Essa vivenda maldita, preservada pela superstição, estivera sempre fechada. Ninguém lhe conhecia já o proprietário, cujo procurador, morto havia muitos anos, deixara a chave à custódia de Marciana.

Ao penetrar no asilo de duendes, onde se ouviam, à noite, gemidos lancinantes, rumores de correntes arrastadas assobios diabólicos, Rosa Veado, que se encarregara de prepará-la para aboletar os hóspedes, persignou-se, balbuciou uma Ave-Maria e acostou-se às outras mulheres, apiedadas da família de Marcos. Mal acenderam a vela, uma coruja espantada esvoaçou, gaguejando pavorosa gargalhada de louco, e enormes vampiros agitaram a luz, o ar deslocado pelo remígio das grandes asas desvairadas.

— Credo! – gritaram as mulheres, recuando de medo. – Te desconjuro, péde-pato!

Passado o susto, entraram e vasculharam, num instante, a sala, impregnada de forte cheiro de estrume de morcego.

Uma levou as redes e as atou aos cantos nos armadores enferrujados; outra sobraçou, reverente, o oratória que foi colocado sobre uma das malas conduzidas pelo Chico, que foi depois à venda da Marciana buscar um pote d'água e um caneco de folha-de-flandres novo. Apareceu, por sua vez, a bodegueira, trazendo um bule com café, três casais de xícaras de ruim louça, esmaltada de flores vermelhas, um pires com açúcar escuro mascavado, e algumas roscas e bolachas, duras como pedra.

— Aí está, seu capitão – disse ela a Marcos – Já tem onde encostar o corpo e o que foi possível arranjar para entreter a barriga. Até amanhã. Vossa senhoria deve ter o corpo pedindo rede... Com Deus amanheça. Se precisar de alguma coisa, é só bater na derradeira porta da esquina.

Marcos contemplava, penalizado, o burro, que Teresinha alimentava com punhados de milho amolecido; tomou Maria da Graça pela mão, e recolheu-se.

— Vai dormir, filhinha...

— E mamãe?

— Está com a outra, tratando o Macaco. Virá mais tarde.

Clara ficara ao lado da filha infeliz, amimando-lhe os cabelos, dirigindo-lhe palavras de amor e conforto, e recomendando-lhe que suportasse, com paciência, as explosões da cólera paterna, até conseguir ser abençoada.

— Ele tem razão, mamãe – balbuciava a moça, com voz embargada pelo hercúleo esforço para conter o pranto. – É o castigo, castigo merecido pelos meus pecados, que são muitos. Não peço que me perdoe, mas tenho padecido tanto com o abandono, que não poderei mais viver sozinha no mundo. Rogue a papai que não me bote para fora de casa. Embora não me tenha mais como filha, porque morri para ele, deixe que eu fique, como negra cativa. Tratarei o Macaco, carregarei água, tomando conta da cozinha, da roupa, pois não me desprezo de fazer todo o serviço.

— Sei que não és má, filha do coração. Foi aquele malvado, meu Deus perdoai-me, que te botou a perder... Eras uma criança... – Não o culpe, mamãe. Cazuza era bom e me quis bem até morrer. Só depois de ficar sem ele foi que me senti na desgraça, por não ter vivalma caridosa que me amparasse.

— Por que não voltaste?

— Tive medo e... vergonha. Faltou-me coragem para afrontar a ira do papai...

Passaram as duas horas conversando, e alimentando, aos poucos, o precioso muar desfalecido. Por fim, teve Clara de obedecer aos repetidos chamados do marido para não o exasperar.

— Anda – disse ela. – Teu pai já está impaciente. Vem comigo.

— Não preciso de descanso. Vá, mamãe, que ficarei vigiando este pobre.

Clara imprimiu-lhe na fronte um longo beijo, e partiu, murmurando: Pobre filha! Deus te abençoe. Parece que lhe quero ainda mais por ser infeliz.

(continua...)

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