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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Qual nada!... Você ainda come araras! Todos eles dizem ter mundos e fundos!... Gosto deste Maranhãozinho, porque não perdoa os tipos que vêm pra cá com pomadas!... O sujeito aqui, que se quiser fazer mais sabichão do que os outros, há de levar na cuia dos quiabos, para não ser pedante! Diabo dos burros! Se sabe muita coisa guarde pra si a sabedoria, que ninguém por cá precisa dela, nem lha pediu! E não se meta a escrevinhar livrinhos e artigos para os jornais, que isso é ridículo!... Lá o meu patrão é quem sabe haver-se com esses espoletas! Ainda há pouco tempo ele precisou ai não sei de que pape! — para o sobrinho que tinha chegado do Porto — e vai — pede a um doutorzinho, muito nosso conhecido, que lhe arranjasse a história... Pois o que pensam vocês que respondeu o tal bisca ao patrão?...

Não sabiam.

— Pois mandou-o plantar batatas! Chamou-o de toleirão! “Que o que ele queria, era um absurdo!” — Sim, hein?...

— Com estas palavras!... Estou lhe dizendo!... Ah, meu amigo mas também o patrão pregou-lhe uma de respeito!... Você sabe que o Lopes, em questões de capricho, não se importa de gastar dois vinténs...

— Sim, como naquela história da comenda...

— Bom. Pois ele foi ai a um outro tipo e encomendou-lhe uma dessas descomposturas de criar bicho!

— E então?

— Ora! Se bem o patrão o disse, melhor o tipo o faz... Ora, espera! Como era mesmo o nome da coisa?... Era... Estou com o diabo na ponta da língua... Ah! Era um anônimo!

— Ah! Um anônimo!

— Uma descomponenga, que pôs o tal doutorzinho de borra mais raso que o chão!

— Ah! Isso foi com o Melinho!... : — Foi. Você leu, hein?

— Ora, mas aquilo do Lopes foi demais. Desacreditou o pobre moço!...

— Não sei! Bem feito!

— E, segundo me consta, nem tudo era verdade no tal anônimo!

— Não sei!... o caso é que esfregou o tipo!

— Sim, mas o que não se pode negar é que o Melinho é um rapaz inteligente e honesto a toda a prova!...

— Que lhe faça muito bom proveito! Coma agora da sua inteligência e beba da sua honestidade! Meu menino, deixemo-nos de patacoadas! O tempo hoje é de cobre! Honesto e inteligente é isto!...

E com os dedos fazia sinal de dinheiro.

— Tenha eu o jimbo seguro acrescentou, e bem que me importa a boca do mundo! E senão — olhe ai para a nossa sociedade!...

E citava nomes muito conhecidos, contava histórias medonhas de contrabandos de grande ladroeiras de notas falsas, do diabo!

— Sim! sim isso é velho mas que fim levou o Melinho?

— Sei cá! muscou-se para o Sul! Que o leve o diabo!

— Pois olhe, gosto daquele moço!... — Não lhe gabo o gosto!

Raimundo, depois de atravessar um quarto espaçoso, penetrou na sala de visitas e achou-se defronte de uma roda de senhoras de todas as idades, na maior parte vestidas de luto, e que, assentadas, fitavam, de cabeça à banda com o olhar cansado e sonolento, o corpo inanimado de Maria do Carmo. Numa rede a um canto, soluçava Etelvina, escondendo a cabeça entre travesseiros; ao lado, uma mulata gorda e enfeitada de ouro — sala de chamalote preto e toalha de rendas sobre os ombros — dizia maquinalmente as frases da consolação. Assentada no sobrado sobre uma esteira. Amância talhava o hábito de Nossa Senhora da Conceição, com que a defunta devia ir vestida à fantasia para a sepultura, como se fosse para um baile de máscaras. Nas paredes, os retratos de família estavam cobertos por um vasto crepe; o do tenente Espigão horrorosamente pintado a óleo, com um colorido cru, tinha através do véu, um sorriso duro de beiços vermelhos. No meio da sala, em um sofá de gosto antigo com encosto de palhinha envernizada, decompunha-se o cadáver da velha Sarmento; tinha o rosto coberto por um lenço de labirinto encharcado de água-flórida; as mãos cruzadas sobre o peito e amarradas à força por uma fita de seda azul; as pernas esticadas o cabelo muito puxado para trás, bem penteado, o corpo todo se mirrando hirto um pouco empenado na tensão dos músculos. Em cima do ventre opaco um prato cheio de sal.

À cabeceira do canapé numa mesinha coberta de rendas, um Cristo colorido, de braços abertos pendia da cruz, e duas velas de cera derretiam-se no lugar do bom e do mau ladrão. Logo junto, uma vasilha de água benta com um galinho de alecrim; mais para a frente, uma Nossa Senhora pequenina, de barro pintado.

Ouviam-se soluços discretos e o crepitar seco das velas.

Raimundo aproximou-se do cadáver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o rosto—estava lívido, com os raros dentes à mostra, os olhos mal fechados mostrando um branco baço, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao alto da cabeça um lenço, amarrado para segurar o queixo. Principiava a cheirar mal.

Então, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de xícaras de café.

Serviram-se.

Raimundo foi levar uma chávena a Ana Rosa, que se achava entre as senhoras.

— Obrigada, disse ela, chorosa, eu já tomei ainda agorinha mesmo.

(continua...)

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