Por Aluísio Azevedo (1895)
Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao almoço e ficaria com ele até as horas do saimento. Pedi-lhe mais que depois do enterro, o não deixasse sozinho naquele casarão triste e solitário; que, em meu nome, o persuadisse de vir para junto de nós, ao menos por esses primeiros dias; e lhe dissesse que eu não podia ir lá com Palmira, como prometera e tencionava, mas que viesse ele; entregasse a casa aos serventes e trouxesse de companhia o seu velho criado Antônio. Era isso o bastante.
Recebidas estas disposições, Leandro saiu do quarto, e minha filha começou a tratar de mim, convencida, como eu, de que era passageiro o mal. Não valia a pena chamar médico; César viria à tarde ou à noite e daria as providências necessárias. A despeito da minha crescente indisposição, perguntei a Palmira que tal lhe parecia a idéia de convidarmos o meu velho amigo para ficar morando indefinidamente conosco. Ela não se abalou com o alvitre, como esperava eu.
— Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. César, que este era para a família menos um estranho que um parente.
Recomendei-lhe então falasse a esse respeito com Leandro e desse-me depois sincera conta da impressão que semelhante idéia produzisse no ânimo dele.
— Ora! respondeu minha filha. Leandro é deveras amigo do velho César. Mamãe bem sabe que ele o estima e respeita como a um pai! Há de sem dúvida ficar satisfeito com a notícia...
Sim, mas fala-lhe, porque talvez não fiquem as coisas neste ponto.
O pior é que o meu padecimento aumentava, e do meio para o fim do dia, tão mal me achei e tão pouco acordo dei de mim, que não posso agora render cópia exata do que se passou. Caí em modorra de febre; creio que delirei. Sei apenas que César veio logo ao fechar da noite; que me receitou; deu-me a tomar os remédios e não me abandonou até o momento em que, já tarde, Palmira o constrangeu a recolher-se ao quarto que lhe destinávamos.
E eu, que o tinha chamado para aliviá-lo das suas penas, recebia agora dele os desvelos de amigo e os cuidados de médico, e de enfermeiro. O que supúnhamos febre passageira era nada menos que uma inflamação de fígado. A moléstia caracterizou-se nessa mesma noite com a alteração na glândula, e o Dr. César fez logo o seu diagnóstico: “Hepatite intersticial, proveniente de impaludismo.” E tive de guardar o leito no dia seguinte e nos outros imediatos, mostrando-se César ao meu lado de uma solicitude sem igual.
Mas, ao fim da primeira semana, reconhecíamos já que a nossa posição era falsa. Desde que constou a minha enfermidade, começaram as visitas, algumas de mera cerimônia, outras de verdadeira estima; e o meu pobre amigo confessava-se constrangido ali, à vista dos estranhos. Além disso, era natural que ele, sem estar de todo transferido lá para casa, sentisse falta dos seus velhos hábitos; homem, como sempre foi, dado metodicamente a longos estudos e a trabalhos científicos. Não me animava contudo a propor-lhe a mudança absoluta, sem a justificativa do casamento. E a situação, dentro em pouco, complicou-se ainda mais, pela contingência em que me vi de ter, para segurança da cura, de aproveitar, ainda no primeiro período da moléstia, a estação das águas de Caxambu.
Foi assim que se resolveu em família, e logo se apressou, o nosso singular casamento.
Como ainda não podia eu sair à rua, tivemos de solicitar uma licença da Igreja para realizá-lo em casa. Não foi difícil, e a formalidade religiosa durou pouco tempo, sem grande escândalo na vizinhança.
As pessoas de nossa amizade receberam a comunicação do fato nos seguintes termos:
“Olímpia da Câmara e o Dr. César Veloso participam a V. Ex.a que contraíram o direito de passar junto a sua velhice, aparentando-se legalmente pelos vínculos conjugais.”
Não sei se a novidade foi muito comentada lá fora, nos vários grupos das nossas relações; não mo disseram, nem eu tampouco a ninguém o perguntei. Quanto a lá por casa — Ah! isso foi diferente: O senhor meu genro não procurou sequer disfarçar o riso que o fato lhe provocava! O leviano, sem atingir o alcance do meu proceder, só nele via o ridículo casamento de dois velhos. Perdoei-lhe, não obstante, ainda essa descortesia, porque ela não era obra da maldade do seu coração, mas só da sua inferioridade moral.
Palmira, essa não riu logo, pelo menos em minha presença; ficou a cismar, sem ânimo de interpelar-me, e daí por diante evitava até de entrar em conversa comigo sobre este assunto. Mas, com César, já não foi tão generosa, porque um dia a surpreendi a faceciar contra o padrasto a respeito do caso. Ele, não sei o que tinha dito, que ela com aqueles seus modos de rapariga travessa, pois nunca os perdeu de todo, tomou-lhe as lunetas, armou-as no nariz e começou a arremedar os meus gestos e a minha voz, exclamando comicamente, com o dedo no ar e a cabecinha empertigada:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.