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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe nos braços. — Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te, meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardemente o posto de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa' Não queiras ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!

— É o diabo!... respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão é que eu já não sei a quantas ando!... já não tenho cara para mostrar a todos esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que eu nunca esperei! — É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade; não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que me puseram nas costas, e fugir, contigo para um canto obscuro, onde não haja preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah, meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono!...

— Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo, sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu! Hás de ser grande e poderoso!

Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que lhe era dado realizar tudo isso — a proteção do padrinho. Não desconfiava ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa; que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua impotência, teve ímpetos de estrangular-se.

Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o seu contrato de fidelidade conjugal.

— Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. — As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!

O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente em um canto obscuro e feliz.

— Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto antes, porque, para falar com. franqueza, desconfio que as coisas não vão boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece?...

Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava "disposta a lutar até ao último momento".

Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio tolher-lhe as asas logo no começo do vôo, e decidir a derrota de Filomena: — declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação de 5 de Janeiro de 78.

O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de políticos que dormiam à sombra dele.

Foi um charivari furioso.

O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder. Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram; mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram... Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.

E tudo veio à superfície d'água; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros, a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.

O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto, perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares; labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem lugar de entrada, nem o lugar da saída. O Imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta; o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.

(continua...)

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