Por Aluísio Azevedo (1884)
Resolveu-se que seria o copeiro quem acompanharia o enfermo durante o resto da noite. O médico recomendara que dessem o remédio de três em três horas. Lúcia lamentou que, justamente nessa ocasião, a sua Cora estivesse em Cascadura ajudando a uma amiga a morrer, porque ao contrário Amâncio não teria outra enfermeira. “Ah! não havia como aquela mulata para tratar de um doente!...”
Mas o copeiro assumiu o posto que lhe designaram, e cada um se recolheu ao competente dormitório. Catarina ainda rabujou sozinha por algum tempo; o Paula Mendes caiu num sono de chumbo, e a casa foi a pouco e pouco se atufando nas brumas silenciosas da noite.
Só então , de tão fracos que eram , ouviam-se os bufidos cavernosos do tísico que, no triste abandono de sua miséria, continuava a gemer, sufocado pela dispnéia.
O desgraçado já não tinha forças par sair à rua. A sua moléstia entrara no segundo período; cresciam-lhe as dores do peito e apareciam-lhe agora, pela madrugada, acessos febris, acompanhados de suores frios e gordurosos.
A magreza desnudara-lhe os ossos, e o alimentos faziam-lhe repugnância. Como era muito pobre, ninguém se interessava por ele; os criados serviam-no mal e a más horas. Traziam-lhe a comida e depunham-na sobre o velador.” bodega lá que se arranjasse!”
Mme. Brizard, por mais de uma vez dissera:
— Também aquele estafermo não ata nem desata!...
* * *
Por volta das quatro da madrugada, Amâncio sentiu passarem-lhe brandamente a mão pela testa, e despertou estremunhado.
Um candeeiro de azeite derramava no quarto a sua meia claridade trêmula e duvidosa. Era tudo silêncio e quietação.
— Lúcia! disse ele, reconhecendo-a e tentando passar-lhe o braço na cintura.
— Psiu! Fez a ilustrada senhora com um dedo nos lábios.— Tenha modo! O copeiro está dormindo e, como o médico recomendou que não deixassem de lhe dar de hora em hora uma colherada do remédio, eu ...
— Meu amor!
— Nada de bulha! Tome o remédio e trate de dormir, que você está doente.
Amâncio bebeu a tisana e com um gemido arrastado pousou de novo a cabeça nos travesseiros.
— Como se acha ensopada esta camisa! Observou Lúcia, apalpando-lhe as costas solicitamente. E perguntou logo onde estava a roupa branca.
O rapaz apontou com dificuldade para a gaveta inferior da cômoda, e acrescentou careteando:
— No fundo, ao esquerdo.
Ela foi abrir o gavetão, muito de mansinho, para não acordar o copeiro que dormia a sono solto sobre um enxergão no soalho, e reveio, toda desvelos, com uma camisa aberta nos braços.
— Vamos! mude essa roupa. O remédio está produzindo efeito. É preciso não resfriar.
O estudante despiu a camisa suada e vestiu a outra.
— Agora, sente-se melhor? Perguntou a mulher do Pereira.
Estava assim, assim... Ainda lhe doía o corpo, e a comichão não tinha diminuído. Parecia que lhe passeavam formigas pelas pernas.
— Trate de repousar. Adeus. Eu voltarei de manhã, para lhe dar outra dose do remédio. Até logo.
Amâncio pediu-lhe que se demorasse mais um pouco, que se assentasse um instante ao seu lado; ela, porém, muito senhora de si, negou-se formalmente, dizendo com a cabeça que não e recomendando-lhe com um gesto que se acomodasse.
— Ao menos um beijinho... pediu ele.
A outra não respondeu e saiu na ponta dos pés.
Voltou pela manhã, como prometera, mas o copeiro já havia dado o remédio ao doente.
— Então! Como passou? Perguntou ela, indo apertar-lhe a mão.
— Ora, mais incomodado com a sua ausência do que com a minha moléstia... respondeu o moço, fazendo um ar infeliz.
— Impressões de momento... retorquiu Lúcia, sorrindo. — Daqui a pouco não se lembrará mais de mim...
E logo, que viu sair o preto:
— Para só pensar na Amelinha...
Amâncio fez um gesto de repugnância.
— Tem toda a razão!... prosseguiu ela — toda! Amelinha é moça, é bonita, e pode casar!
— Comigo, nunca!... afirmou o rapaz.
— Não poria a mão no fogo... insistiu Lúcia. — Agora eu, sim, já sou papel queimado, e estou velha...
— Velha? Dê-me então a sua bênção...
Lúcia sorriu e estendeu-lhe a mão, que ele beijou avidamente, ficando depois a examiná-la, como se contemplasse uma obra de arte.
— É feia... disse a senhora — é comprida demais e magra.
– É adorável! Desmentiu o estudante. E tornou a beijar, com exagerado transporte, a mãozinha que conservava entre as suas.
— Está bom. Chega! Para bênção já basta! E ela puxou o braço. — Deve estar a surgir o batalhão de seus enfermeiros! Adeus.
— Eu os trocaria a todos por ti, minha santa!
— Isso é o que havemos de ver! Replicou ela intencionalmente. E saiu do quarto.
O Coqueiro, que chegou logo depois, percebeu que Lúcia acabava de estar ali, mas não deixou transparecer a sua contrariedade.
— Então?! perguntou.
O doente fez uma careta de desânimo.
— Tiveste alguma novidade durante a noite?
— Nenhuma, respondeu Amâncio.
— O remédio, tomaste-o? — Tomei.
Coqueiro deu uma volta pelo quarto, para demorar um pouco mais a visita, e disse frouxamente:
— Bem, tenho que ir pr’as aulas. Até já! — Loló e Amelinha não tardam por aí.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.