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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- O padre Antonio entregou a Marcelina o papel a que se referira. Era tempo. Lourenço entrava para dizer que seus serviços já não eram necessários no sitio.

- - Por derradeiro, quero dar-te um conselho, Marcelina, disse o padre levantando-se. Ao que parece, está projetado um ataque ao engenho. Devem passar por aqui os assaltantes, e natural é que tentem algum desacato a vocês, por se vingarem das relações que Francisco mantém com o sargento-mór. Por isso prudente me parece que não pernoitem aqui por estes tempos. No engenho, onde há mais força, deve haver mais segurança. Seu padre tem razão, respondeu Marcelina.

- Mas no engenho é que eles têm sede, observou Lourenço.

- Pois façam o que lhes parece melhor, tornou o sacerdote.

- O melhor é irmos para a casa grande enquanto é cedo, disse a cabocla.

- Verdade seja – acrescentou o rapaz – que eu devo estar junto de Germano, para ver esse negro o que faz. Vosmecê bem sabe porque é que eu digo isto, minha mãe.

- Está acertado. Vamos já.

- Adeus, Marcelina. Deus te abençoe, Lourenço, disse o padre Antonio, limpando a furto duas lagrimas que lhe apontaram nos olhos, e encaminhando-se para a estrada.

- Daí voltou-se para dizer: - Escuta de lá, Lourenço. A chave da casa, na ocasião de sair, mando por debaixo da porta. Quando voltares do engenho, achá-la-has da banda de dentro. Senhor sim.

Uma hora depois Lourenço e Marcelina tomavam para o Bujari. Não se meteu muito que o padre Antonio com seu escravo José deixou como eles a estrada, seguindo porém diferente direção. Era madrugada velha quando entrou pelo Cajueiro o Tunda-Cumbe com sua gente. Pedro de Lima bateu com o coice do bacamarte sobre a porta da casa de Francisco, e como daí ninguém lhe respondeu, foi ele o primeiro que pôs fogo nela. Outros bandidos o imitaram, tomados da volúpia feroz que caracteriza os celerados. A casa do padre foi poupada por ser de quem era. Mal sabiam eles que poucas horas antes tinham voltado daí, inteiramente frustrados em sua expectativa e sem poderem explicar o fato que profundamente os contrariaria, dois parciais dos mascates mandados por Antonio Coelho com todo o necessário para acompanharem o padre à Paraíba.

Ao clarão do incêndio, penetraram os malvados na mata, caminho do engenho, supondo que iam surpreender o sargento-mór. Este porém, advertido desde muitos dias atrás por diferentes circunstâncias, suspeitas e até boatos, tinhase passado àquela tarde para o sobrado que costumava ocupar, quando festas publicas ou negócios particulares exigiam a sua estada temporária na vila. Marcelina e Lourenço, não tendo encontrado a família na casa grande, foram reunir-se com ela em Goiana.

O sobrado estava situado no quarteirão fronteiro à igreja do Carmo. Ficava olhando para o cruzeiro de pedra que aí se vê e do qual se diz que em seus alicerces se acha enterrado grande tesouro destinado pelo instituidor à reedificação do convento, se suceder que venha a cair em ruínas.

Esta tradição existia já em 1711 porque, por ocasião de um dos oitos motins de que, durante a guerra dos mascates, foi teatro Goiana, um bando da gente do Tunda-Cumbe atirou-se ao cruzeiro, e a uso dos vândalos, que tudo destruíam, mutilou parte da larga e solida peanha, sobre a qual ainda hoje se mostra assente a cruz, e fez profundas escavações, afim de ver se davam com o cabedal oculto. Não se sabe se a sua expectativa foi satisfeita ou iludida. Neste ponto a tradição anda adiante.

Com o sargento-mór tinha ido para Goiana grande parte da escravatura; o restante ficara no engenho para o guardar e defender, sob as ordens de alguns moradores, entre os quais se apontava o Victorino, cuja intrepidez era por todos conhecida. A mudança fora súbita.

Quando a coluna invasora chegou ao engenho, já era aí esperada; e por isso foi recebida com todas as honras. A defesa tinha sido bem organizada por Victorino e seus companheiros. A casa grande semelhava uma cidadela fortificada. Mas, infelizmente, o animo que sobejava nos moradores, faltava nos escravos. Enquanto aqueles faziam prodígios de valor, estes defendiam as entradas frouxamente. Dentro em pouco tempo conheceram os assaltantes, superiores aos assaltados não só em numero, mas no manejo das armas, que a praça não tardaria em cair debaixo do seu poder. Cônscio desta verdade, o Tunda-Cumbe chamou de parte o Padre Lima e o Gonçalo Ferreira, deu-lhes ordens à puridade, e, pondo as pernas ao cavalo, desapareceu por entre uns canaviais que do lado direito vinham morrer no cercado. Victorino, que de uma das janelas tinha debaixo das vistas o movimento inimigo, viu aos primeiros clarões do amanhecer, tomar o caminho de sua casa o chefe da quadrilha.

Não foi preciso mais para compreender a intenção do bandido.

(continua...)

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