Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Jorge de Almeida não se atreveu a vingar-se da enorme affronta que recebera de Fábio ; a sua colera porém não foi desarmada pela virtude da humildade : elle não perdoou, teve medo.
Entretanto, era-lhe necessário salvar as apparencias, e suppoz salval-as, representando uma comedia que nem ao menos teve o merito da originalidade.
Fábio foi provocado a um duello, e uma hora depois a policia tinha já conhecimento do prazo e do logar do encontro, que assim ficou sem resultado, tornando-se impossivel o duello, esse crime que debaixo de certo ponto de vista pôde bem dizer-se um crime civilisado.
O pai de Jorge, temendo por seu filho unico, o pai da noiva deste receiando ver também compromettido o credito de sua filha, apressarão o casamento que fora adiado por alguns dias, e que se effectuou promptamente.
Assim, pois, uma familia honesta abrio o seio, e nella recebeu o homem indigno, o libertino que acabava de seduzir uma donzella e de tornal-a para sempre desgraçada.
Um pai que se ufanava de ser extremoso, entregara sua filha bella, innocente e pura, a um miserável que fora o algoz de outra mulher bella, innocente e pura.
Muitas e respeitáveis familias correrão a cumprimentar os noivos e a pedir as relações e a amizade de Jorge de Almeida.
As mais, as esposas, as donzellas estenderão suas mãos, e apertarão nellas a mão do mancebo corrompido e corruptor que trouxera para o leito nupcial, ainda fresca a lembrança de uma seducção infame.
Todos sorrião para Jorge de Almeida, todos o festejarão, todas as casas se abrirão para recebel-o, e ninguém se lembrou de pedir-lhe contas do seu crime.
E no emtanto Juliana, a victima de Jorge de Almeida, vivia escondida em triste solidão e gemia ferida pelo desprezo publico.
As sociedades a enxotavão do seu meio com a injuria, que nem mais procuravão disfarçar. Os pais e as mais tinhão recommendado ás suas filhas que fugissem da companhia de Juliana.
Os màncebos atrevião-se a olhal-a de um modo que equivalia a um insulto.
E a infeliz recuara diante dessa manifestação terrivel, e, não tornando mais a apparecer no mundo das festas e dos prazeres, escondia a sua vergonha no interior do lar domestico.
XXVII.
Juliana recebia o castigo de uma grave falta.
Uma sociedade moralisada, que se respeita e que se estima, não pôde receber a mulher que se deixou seduzir, pondo-a em contacto com as donzellas e com as senhoras honestas, cercandoas dos mesmos respeitos.
A distincção entre uma e outras é um justo premio devido á virtude.
Mas não pode haver seducção sem que haja seductor, e se a seducção é um crime, o seductor não é menos, ou ainda é mais criminoso do que a mulher seduzida.
Na seducção a seduzida é uma victima, o seductor é um algoz.
E entre uma victima e um algoz, a equidade, a generosidade e a moral não podem hesitar.
A victima de uma seducção delinquio diante da virtude, calcou aos pés um dever, merece uma punição ; seja punida pois.
A bao sociedade rejeita a mulher seduzida, a victima ; ainda bem.
Mas o seductor ?... mas o algoz ?...
A sociedade que se chama boa, a sociedade que pune a victima, abraça o algoz; a sociedade que repelle a mulher seduzida, festeja o seductor!...
Não é moralisada uma tal sociedade; não, e não.
É uma sociedade injusta e cruel, escrava da tyrannia dos homens, corrompida e ignobil.
O crime é sempre um crime, seja elle praticado por um homem, como por uma mulher.
Como se explica a contradicção de se ostentar uma justa severidade com a mulher que é fraca, e uma inexplicavel condescendencia com o homem que é forte ?...
Não; tal sociedade não é moralisada, e para que o seja, deve estender o castigo das seducções aos seductores e ás seduzidas ; deve repellir os algozes como repelle as victimas; deve também trancar suas portas aos libertinos que sacrificão ao seu infame sensualismo a reputação, a felicidade e a vida inteira de pobres jovens que por elles se deixão enganar.
Mas a nossa brilhante e ufanosa sociedade não somente tolera, como chega a parecer que applaude os seductores, ouve as historias dos seus horriveis triumphos, e sorri ouvindo-as; não se envergonha da companhia dos algozes, e aperta-lhes a mão !...
E o pai que acaba de dizer á sua filha — não te sentes ao pé daquella mulher, não lhe falles, porque está manchada pela seducção ! — vê logo depois, e não acha que dizer, vendo sua filha dansar ao lado do seductor, e ser por elle levada em prolongado passeio pelas salas do baile !...
E chama-se moralisada uma sociedade que assim procede !
XXVIII.
Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afflicções de um opprobrio irremediavel.
Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.
Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhão-se apagado no coração da infeliz moça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.