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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Esbarrado em seu ímpeto, o touro soltando o urro medonho que ribombou até o fundo da floresta, redobrara de furor. Rodando para fazer frente ao adversário, escorou-se no laço, a cavar o chão com as unhas, e a amolar as pontas na terra. Quando acabou de visar bem o alvo, partiu como um tiro de morteiro. 

Arnaldo deitara-se sôbre o arção, alongando a vara de ferrão pela cabeça fora do cavalo e apoiando o cabo na coxa, forrada não só pela perneira, como pelo gibão de couro. Assim em guarda correu êle sôbre o touro e topou-o no meio da carreira. 

O aguilhão afiado cravara-se no meio da testa do touro, que recuou trespassado pela dôr. Com o ímpeto a vara tinha vergado como um arco prestes a romper-se; e o cavalo foi repelido a três passos para trás. Mas o sertanejo não se abalara da sela. 

Ourém que observou de longe a cena repetia ao João Correia êstes versos de Camões: 

 

Qual o touro cioso que se ensaia

Para a erma peleja, os cornos tenta

No tronco de um carvalho ou alta faia.

E o ar ferindo, as fôrças experimenta. 

 

Recolhendo a vara, Arnaldo dera liberdade ao cardão, que reatou a desfilada um instante suspensa pelo tope, e passou ao lado do sorubim, o qual também de seu lado prosseguia na investida. 

Chegados ao extremo da corrida, ambos, o touro e o cavalo, voltaram-se rapidamente; pararam um instante, o touro a fazer pontaria, o cavalo a esperá-la, e partiram ambos como da primeira vez para novamente esbarrarem-se a meio da carreira. 

Assim divertiu-se o sertanejo em excitar a sanha do touro furioso, e topá-lo na ponta da vara de ferrão. Depois de ter brincado com êle, como um gato com o ratinho, a quem deixa fugir por negaça e para ter o prazer de o filar outra vez, o rapaz em vez de recebê-lo na ponta do aguilhão, desviou o cavalo do ímpeto, e alongando-se com o animal, torceu-lhe a cauda entre dois dedos e com um jeito especial a que no sertão chamam mucica. 

O possante animal tombou por terra, como se uma clava o abatesse. Sem apear-se o sertanejo retirou o laço, e com uma rapidez de maravilhar deu um talho no rejeito das mãos, com o que peou completamente o animal, e tornou-o inofensivo. 

Terminada esta operação, que não consumira com a luta precedente mais de minutos, Arnaldo veio postar-se no mesmo lugar que anteriormente ocupava na chapada da colina, e donde continuou a observar a corrida que os cavaleiros davam no Dourado. 

No momento em que o capitão-mór partira com os outros campeadores, Arnaldo não se influira. Como dissera a Alina, êle não gostava daquelas correrias em que os homens assaltavam insidiosamente os touros, tomando-lhes os passos por onde poderiam evadir-se. Parecia-lhe isso pouco generoso. Um bom campeador já tinha demais a rapidez de seu cavalo para pedir ainda auxílio de outros vaqueiros. 

Todavia ficara de observação, porque se o Marcos Fragoso se mostrasse capaz de pegar o Dourado, êle propunha-se a arrebatar-lhe a satisfação dêsse triunfo como já fizera uma vez; e consigo mesmo tinha jurado que as solas daquelas chinelas de que falara o namorado capitão, se êste chegasse a cortá-las, teriam feito a última proeza de sua vida. 

Tornando agora a seu ponto de observação, continuou a acompanhar a corrida; mas já então excitado pelo assalto do sorubim, dava combate a si para permanecer alí imóvel, quando lá estava um boi famoso a desafiar os seus brios de campeador. 

Entretanto a corrida prosseguia com vários acidentes no meio do alarido dos cavaleiros, e do estrépito com que a gente postada pela várzea afugentava o gado acossado que buscava escaparse do circo. 

Logo no princípio o Ourém e o João Correia mostraram que não basta envergar uma roupa de couro para tornar-se vaqueiro. Não eram maus cavaleiros de cidade; mas coisa mui diversa é correr em um campo alagado e coberto de mato, onde de repente falta o solo ao cavalo, e o espaço ao homem. 

Daniel Ferro, êste desempenhara galhardamente as barbas dos vaqueiros de Inhamuns; e o Campelo a-pesar-de sua corpulência não lhe ficava atrás. Quanto ao Agrela, sabia que sua obrigação era ir ao pé do capitão-mór, e assim o acompanharia ao inferno. 

O melhor cavaleiro porém, aquele que ia na frente e com muito avanço, era o Marcos Fragoso. Além de ágil e consumado na arte da equitação, como nas outras próprias dos mancebos nobres de seu tempo, êle montava um soberbo cavalo dos Cratiús, e corria atrás de um troféu para o seu amor. Nem o cavalo, nem êle, careciam de um aguilhão, pois eram briosos ambos; mas o primeiro sentia o roçar da espora, e o segundo passava no remoque do capitão-mór e do desgôsto que sofreria, se não cumprisse o voto feito a D. Flor. 

Quando Arnaldo voltara à colina, Fragoso acreditava que o Dourado não lhe podia escapar. O boi corria frouxamente; e mal guardava entre êle e o cavaleiro a distância de cem passos. Metiase nas moitas que encontrava pelo caminho, como para descansar um momento, e dava todas as mostras de fatigado. 

(continua...)

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