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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Cumpre que tudo isto tenha um termo; e quanto mais cedo, melhor.

– Que devo fazer?... eu não sei nada... desvairo e choro.

– Pois bem: irás ao “Céu cor-de-rosa”.

– Quando?...

– Hoje não; estás agitado demais. Irás ao primeiro serão.

– E depois?...

– Terás uma conferência com tua amada, e positivamente oferecer-lhe-ás a tua mão.

– E finalmente?... exclamou Henrique.

– Pedi-la-ás em casamento ao velho Anacleto.

– Tu mo aconselhas?... – bradou o amante abraçando com força a Carlos – tu mo aconselhas?...

– Sim! sim! respondeu este.

E depois continuou falando consigo mesmo:

– Dos males o menor.

CAPÍTULO XXII

UM SERÃO SEM ELE

SE O OLHAR do observador pudesse chegar ao fundo do coração humano, esquadrinhar todos os seus escaninhos, arrasar seus segredos mais ocultos, ler nele como em um livro; teria, é verdade, muito de que horrorizar-se, muito de que espantar-se com a hipocrisia e malvadeza da humanidade; em compensação porém acharia um encanto indizível, examinando o coração de uma moça que começa a amar pela primeira vez.

Porque, se doçura imensa se goza já nessas rápidas e passageiras traiçõezinhas, que fazem ao pudor de uma virgem os suspiros que por entre os lábios escapam, e os olhares que com mal comprimido fogo dardejam os olhos; em que mar de inocência, de amor angélico, de candura e de graças se não banharia o pensamento do observador, penetrando no coração da virgem cristã?!

Uma vida nova começa com o primeiro dia de amor. A aurora desse dia rubra com o pejo da moça, revela um mistério que ainda se não compreendia a noite passada.

De então por diante todos os pensamentos, todos os desejos, os brilhantes arabescos da imaginação, os sonhos, que a alma sonha acordada, o futuro, os risos, o pranto e a vida da virgem estão presos por correntes de rosas ao mistério que se revelou.

Foi o grito da natureza que soou, e que repercutiu no coração da donzela.

Mas a virgem cristã teve a educação da pureza, e tem o pudor da mulher. Desde que concebeu a idéia do amor, desde que a sentiu, ouvindo o grito da natureza, corou de si mesma.

Por que cora?... por que esconde um sentimento que a natureza inspira?... por que cora?... perguntai-lhe. Ela responderá com voz quase sumida – não sei, – há de corar mil vezes mais, respondendo.

E a virgem que não corasse por mais formosa que fosse, seria como uma flor sem perfumes, ou uma alma sem pensamentos.

Mas a virgem pretende em vão esconder o amor que amanheceu no seu coração. Ela o esconde, e ele se revela, como ainda o perfume que escapa da flor, e ainda o pensamento que transpira da alma.

Observai a moça que começa a amar. Tudo é novo nela: uma revolução se operou em seu caráter e em suas ações; o seu físico mesmo se ressente; ela se torna mais encantadora.

Estudai a expressão de seus olhos; seus olhares são vagos, rápidos, às vezes langorosos... é belo vê-la olhar assim...

Melancólica e distraída, seus antigos prazeres a afadigam; esqueceu-se deles... tem na mente um desejo novo...

Louquinha que amava as festas com seu ruído e bulício; que corria pelos prados; que brincava com as companheiras saltando, gritando, zombando; agora se esconde em seu quarto para chorar sem motiva, e depois, no jardim, fica uma hora parada defronte de uma flor...

Isso, e ainda muito mais que não será possível descrever completamente nunca, é a história da madrugada do amor, que todas as que foram moças gozaram, e que as que o não são devem gozar ainda.

Celina começava a experimentar todos esses fenômenos. A noite de seus anos rasgara, enfim, o véu da dúvida... No fim do canto do mancebo pobre ela havia compreendido que já o amava muito; que dentro do seu coração esse amor brotara e crescera sem que fosse sentido... Cândido era amado.

Mas por que se tinha ele retirado antes da terminação do baile? por que não aparecera desde então no “Céu cor-de-rosa”?

O amor de Celina começava com tormentos. Porque também é regra que no amor uma dúvida é um tormento, uma suspeita é veneno.

Com ansiedade esperou a “Bela Órfã” pela primeira noite de serão... devia vêlo... Cândido, se a amava, não podia faltar... havia de vir por força...

Gastou o dobro do tempo que costumava, em seu toucador. Tinha vontade de parecer ao homem que amava a mais bela de todas as mulheres.

Chegou a hora do serão. Vieram pouco a pouco chegando todos aqueles que costumavam freqüentar o “Céu cor-de-rosa”.

Celina não podia arrancar os olhos da porta da entrada; por três vezes já, tinha ido à janela sob diferentes pretextos.

Apresentou-se Henrique... algum tempo depois apareceu Salustiano.

Os sinos tocaram nove horas da noite. Cândido não havia chegado.

Celina não pôde conter um forte movimento de impaciência e desagrado.

– Meu Deus! D. Celina, exclamou Felícia, o que é que hoje você tem?

– Parece que esperava por alguém que não chegou, disse Mariquinhas; ela não tem tirado os olhos da porta da sala,

(continua...)

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