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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Homem cuja instrução se limitava à primária, mas de idéias claras e de caráter muito firme, o Passos era em política inofensiva republicano, mas ligado ao partido liberal que fez decretar a maioridade do Imperador.

Já avelhantado e sujeito a ataques erisipelatosos nas pernas e ainda assim de atividade e diligência notáveis, e de economia que levava à exageração o Passos, que morava no bairro da Glória, vinha todos os dias de manhã a pé para sua loja, da qual só se retirava à noite.

Havia quem se queixasse do Passos pelo zeloso cuidado com que ele guardava o que era seu, e pelas conseqüências da exageração da economia em transações, à que dificilmente se prestava, mas nunca houve pessoa alguma que pusesse em dúvida a fidelidade de suas contas.

Fora dos negócios, em que se impunha positivo e frio como a aritmética, o Passos era outro homem.

De mediana estatura, de cor morena, casca grossa, de olhos pequenos, de músculos faciais quase inertes e todavia de expressão fisionômica agradável, atrativa para os amigos, e em geral para os liberais conhecidos e pronunciados, o Passos teve sem o pensar nomeada que lhe ia custando cara.

Em política era de tolerância absolutamente ilimitada, mas só com os liberais: recebia, agradava, atraía os liberais de todos os matizes... somente porém os liberais.

Em frente da sua loja estava o balcão, até o qual eram admitidos todos os compradores de papel, de objetos de escritório e de periódicos liberais, todos, ainda mesmos os mais ardentes conservadores (dos quais aliás nenhum entrava na loja), mas do balcão para dentro o caso era muito diferente.

O fundo da loja era uma saleta modestíssima, pobre; no meio da saleta havia rude e velha mesa de pinho, mas em torno dessa mesa sentavam-se freqüentemente quase todos os dias, honrando a sociedade do Passos, muitos liberais pronunciados na imprensa e no parlamento, e alguns dos chefes do partido liberal.

Eu por mim dou testemunho de que no meu tempo ainda lá encontrei muitas vezes o atual Sr. Visconde de Abaeté, o velho Costa Ferreira, Barão de Pindaré (assíduo e espirituosíssimo conversador), o Senador Alencar, Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, o Dr.

José de Assis, o Padre José Antônio de Caídas, que com o Ractikliff e outros fora condenado à morte em 1824, Teófilo Otoni e muitos outros.

Mas a data de 1848, em que ainda florescia no fundo de sua loja o Passos, prova que ele por firmeza de caráter e de idéias políticas não quebrara nem torcera com a experiência da adversidade; porque em 1842, tendo rebentado as revoltas liberais das províncias de São Paulo e de Minas Gerais, e sabendo o governo com reais e bons fundamentos que o principal foco da conspiração revolucionária estava no Rio de Janeiro, fez prender ao atual Sr. Visconde de Abaeté, a Sales Torres Homem, Dr. Meireles e outros, entre os quais o depois meu amigo Passos, que era em verdade incorrigível republicano de aspirações, ardentemente desejoso do triunfo daquelas revoltas; incapaz, porém, de fazer por elas sacrifícios que aproveitassem a causa que fora levada ao campo da ilegalidade e dos combates.

Ainda bem que por exceção individual um pouco menos violento e opressor o governo limitou-se a pôr o inofensivo Passos debaixo das vistas da política e o excluiu do número dos nobres proscritos de então.

Mas o Passos não se corrigiu!... em 1848 e ainda anos depois conheci-o, freqüentei-o, e sempre o apreciei inabalável em suas opiniões, com as quais morreu.

Como todos os homens, ele tinha predileção firmada em confiança. O varão predileto do Passos era o célebre e estimadíssimo estadista Limpo de Abreu, o atual Sr. Visconde de Abaeté.

Quando morreu, o Passos deixou em verba testamentária pequeno legado, mas grande prova de amizade antiga e profunda ao Sr. Visconde de Abaeté, o qual, aliás (sempre é bom dizê-lo), nem soubera, nem procurara saber se o seu amigo tinha feito ou não testamento.

O Passos foi verdadeiro exemplo de lealdade e de firmeza inabalável em suas idéias políticas, era rude e pertinaz republicano, que todavia fraternizava com os monarquistas liberais, sendolhe só impossível entender-se com os conservadores.

Se a sua agreste e velha mesa de pinho do fundo da loja falasse, diria coisas capazes de apagar crenças no ânimo do povo, e de confundir e de envergonhar não poucos varões ilustres.

Felizmente ninguém sabe onde pára a tradicional velha mesa de pinho, e que o soubesse alguém, a pobre mesa não poderia repetir os cantos de palinódia, e as escandalosas metamorfoses políticas que contrastaram com as protestações e juramentos de propaganda de constituinte e de republicanismo, que junto dela o Passos ouviu entusiasmado de 1849 em diante para morrer poucos anos depois ainda republicano, mas descrente e maldizendo dos seus republicanos mais ardentes, que se transformaram em dedicações sem limites da monarquia.

(continua...)

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