Por Adolfo Caminha (1893)
Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo, medindo-a de alto a baixo, como se vissem nela uma transfiguração extraordinária.
— Então a senhora não vem? repetiu o homem fazendo uma carranca medonha.
— Não senhor...
— Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. A senhora é uma insubordinada, desobedeceu à primeira autoridade deste estabelecimento. Vamos, retire-se!
Houve um silêncio grave, e Maria, tomando os livros, séria e resignada, sem olhar para as colegas, retirou-se taciturna, ouvindo atrás de si o atrito da esponja na pedra.
E tudo mais era assim, sucediam-se as contrariedades como um castigo. Crescia-lhe na alma o desgosto, como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando pouco a pouco toda a vasta cúpula do céu para se desfazer em chuva caudalosa. Tinha pena de não ser, como as “outras mulheres”, indiferente a tudo, até nos momentos mais difíceis da vida. Vinham-lhe às vezes alegrias intermitentes, uma resignação infinita animava todo seu ser, e dispunha-se a enfrentar todas as conseqüências do seu desatino com uma calma heróica, sem dar mostra da mais leve tristeza.
Nesses momentos abria-se em efusões de ingênua bondade para com D. Terezinha, procurando-a, puxando conversa, oferecendo-se-lhe para pentear o cabelo, gabando-lhe os vestidos, com uma humildade de escrava. Mas a madrinha, seca e indomável, aborrecia-se com aquilo, enfadava-se, sempre de cara fechada, respondendo por monossílabos às perguntas da afilhada. Quando amanhecia malhumorada, com as suas desconfianças, enquizilava-se demais. — “Deixe-me, criatura, deixe-me, por amor de Deus, oh!” Maria não dizia palavra, recolhia-se ao silêncio do seu quarto a costurar ou a ler o Almanaque das senhoras por desfastio, para se distrair.
Entretanto João da Mata progredia no vício de beber aguardente. Andava agora muito chegado ao Perneta e ao Guedes, de quem se dizia amigo do coração.
A bodega do Zé Gato continuava a ser o ponto de suas reuniões, onde se demoravam às vezes até alta noite a jogar a bisca num esquecimento absoluto de família e de deveres, saturados de álcool, lívidos à luz de um miserável candeeiro de querosene. O triste ordenado que lhes pingava no bolso em cada fim de mês escorria-lhes por entre os dedos como azougue, transformando-se em fichas na banca do jogo e desaparecendo como por encanto, sem que eles próprios soubessem como.
Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar à feira no dia seguinte!
Era preciso então tomar dinheiro a juros aos agiotas, correr toda a cidade atrás de alguém que lhe emprestasse alguns mil-réis até o fim do mês, contar as suas necessidades, as pequeninas misérias domésticas, inventar situações incríveis. Porque os seus “amigos do coração”, o Perneta e o Guedes, da Matraca, também eram pobretões e perdulários, sentiam muito as necessidades do Janjão, mas não lhe podiam ser úteis por forma alguma, senão dando-lhe a ganhar no jogo quando a sorte não os protegia.
— É. Eu bem sei que vocês também têm família como eu e precisam também. É o diabo, é o diabo!
Daí as dissensões, os conflitos, em casa, com a mulher por causa de dinheiro. Ele já não conseguia impor à D. Terezinha a sua autoridade de chefe de casa, como dantes; ao contrário, agora suportava-lhe as impertinências, as saraivadas de impropérios, com uma passividade de animal submisso.
— Tenha vergonha, homem de Deus, tenha vergonha, que você já não é criança, dizia-lhe ela nas bochechas, quase lhe abanando o queixo. Olhe para as barbas que tem na cara, porte-se como gente!
E ele ouvia tudo aquilo sem dizer água vai, caladinho como um prego, murcho, impotente!
Como os tempos mudam! Há poucos dias era ele forte, o mandachuva naquela casa; bastava um olhar seu, por cima dos óculos escuros, para que todos, D. Terezinha, Maria do Carmo e a Mariana, estremecessem com medo, porque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de cólera; agora não, tinham-se trocado os papéis: bastava um olhar de D. Terezinha para que ele lhe desse as costas disfarçadamente para evitar barulho.
— Basta, basta, basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele com os olhos chamejantes, de mãos fechadas.
E escafedia-se até o fundo do quintal para não lhe ouvir os disparates.
Estava magro, muito magro, e queixava-se de dores nos intestinos.
Diabo da repartição não lhe deixava tempo para nada. Era um trabalhar sem descanso, sentado a uma banca, das nove às três, copiando ofícios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse quem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a metade do ordenado... Mas, qual! tudo uns políticos sem importância, uns lagalhés que iam para a câmara proferir barbaridades, a repetir que o país estava à beira de um abismo e nada mais! Até estimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra parte, e escusava perder tempo e emporcalhar papel, para no fim do mês — tome lá o seu ordenado, uns míseros vinténs que mal chegavam para o boi. Uma desgraça!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.