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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Pouco depois, o grupo estava cercado de moradores da vizinhança, cada qual mais curioso e empenhado em socorrê-lo. Vieram em seguida, e quase sobre os passos de Teresinha, Rosa Veado e o Chico, um guapo tipo de homem; a Marciana que mantinha, nas proximidades, uma bodega bem sortida e possuía já algumas libras de oiro em obra, comprado aos retirantes a troco de gêneros alimentícios; e, esgueirando-se por entre os circunstantes, o bando infalível, barulhento de meninos, os mais pequenos nus, os outros enrolados em trapos, em molambos.

— Anda, Francisco – ordenou Rosa ao filho – dá um adjutório a estas criaturas... Abre a casa; leva as malas...

— Amanhã – exclamaram os meninos, tripudiando em volta do burro – urubus têm festas! Este mesmo está aqui e está no céu das formigas!...

Rosa Veado tomou o oratório; beijou-o, com reverência, que outras mulheres, outras devotas, imitaram, silenciosamente.

— O senhor – observou ela ao velho Marcos – tem coragem. Eu não passava a noite naquela casa amaldiçoada, nem que me matassem.

— Eu só tenho medo dos vivos – ponderou o velho.

— É que vossa mercê não sabe o que nela se tem dado, coisas de arrepiar coiro e cabelo...

— Que me importa visagens e almas do outro mundo, ou artes do demônio? Por ora, eu careço, que me arranjem alguma coisa para matar a fome deste animal... — Não é difícil – atalhou Marciana. Mas, o senhor deve saber que o milho está pela hora da morte...

— Ainda tenho meios, graças a Deus, e, além da paga, ficaria agradecido.

Marcos desatou da cintura uma faixa elástica, tecida de algodão, e tirou dela alguns patacões de prata. A vista das moedas, desapareceram as hesitações de Marciana, que se desmanchou logo em cumprimentos e palavras de pesar pela sorte da família e prometeu prove-la, sem demora, do necessário, preparando a casa malassombrada para aboletá-la com a possível comodidade naquela noite.

Não era raro aparecerem, entre os retirantes, famílias abastadas que haviam abandonado os lares, levando dinheiro e jóias sem valor por não terem o que comprar, mesmo a preços exorbitantes. Marcos, depois de inútil resistência, viu-se nessa triste situação. De esperança em esperança de mudança de tempo, vira os gados morrerem nos campos devastados; consumira, com parcimônia cautelosa, as provisões acumuladas, os surrões de farinha de mandioca, os paiós de milho, arroz em casca e feijão; as matalotagens em salmoira ou empilhadas se esgotaram por encanto, porque não tivera coragem de recusar esmola aos famintos que passavam pela sua fazenda. Os vaqueiros, agregados e pessoal de fábrica, empregados na labutação de criadores e agricultores, na maioria escravos velhos e crias de casa, não tinham que fazer; eram bocas inúteis. Alforriou-os deu-lhes liberdade para ganharem a vida.

Cansado de resistir e lutar, aguardando, em vão, sinais de inverno, viu-se, afinal, só, sem um amigo, um companheiro, um vizinho, numa redondeza de dez léguas, exposto aos assaltos de bandidos, que enchiam a região, e resolveu emigrar. Arrumou em algumas malas o indispensável, a roupa da família e algum dinheiro, enterrando o resto com a prataria, velha baixela e jóias numa brenha de serrotes ásperos e pedregosos. Organizou o comboio com três burros e outros tantos cavalos de sela, e partiu na direção de Sobral, a cidade intelectual, rica e populosa, empório do comércio do norte da província, na qual o Governo estabelecera opulentos celeiros.

Na longa e penosa travessia, à falta d'água e pasto, morreram os cavalos, depois dois burros. Foi forçado a abandonar malas, reduzir as cargas a uma só para que Macaco, o animal sobrevivente, a pudesse agüentar. Pela primeira vez na vida, tiveram de viajar a pé, a curtas jornadas, para não fatigarem o animal e poderem suportar, sem se estropiarem, a penosa marcha de exílio.

Muita vez, arranchados à sombra de oiticicas frondosas, oferecera um patacão por uma cuia d'água. Os raros bebedoiros subsistentes ficavam longe da estrada real: era preciso fazer enormes desvios para os alcançar. Cortava-lhe o coração ver a filha, a meiga Maria da Graça, descorado o rosto de criança na moldura dos cabelos de oiro, rendido o frágil corpo, os pezinhos dilacerados pelas agruras dos caminhos e veredas, os rubros lábios ressequidos e rachados, as entranhas devoradas pela sede, adormecer no regaço da mãe, também mortificada, mas resistindo resignada, com esse valor divino que torna invencíveis as mães aflitas.

Ele sofria a tortura inigualável de não a poder socorrer, mesmo com o sangue de suas veias; de pedir, em vão, ao céu luminoso, impassível, sorridente, a gota de orvalho que alentasse aquele lírio, nascido nas ruínas de sua alma, a vergar emurchecido, tostado pelo sol inexorável, quando, no delírio da febre, a pobrezinha, com ânsia, balbuciava: "Água... água, papai!"; e ele via dos olhos da mãe, resignada e heróica, a implorar misericórdia ao Deus de amor e justiça, por intercessão daqueles santos companheiros de infortúnio, rolarem grossas lágrimas silenciosas.

(continua...)

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