Por Aluísio Azevedo (1881)
A escada era dividida em dois lances, dispostos em sentido contrário um do outro; Raimundo chegou ao fim do primeiro lance sufocado e galgou o segundo de carreira, dando aos diabos o maldito costume de fechar toda a casa, quando ela mais precisa de ar porque tem dentro um cadáver. Numa das salas da frente, forrada então pelo tapete do armador, tapete velho e, tão crivado de pingos de cera, que o pé escorregava nele, estava um grande tabuleiro de paparaúba, cheio de tochas e enormes castiçais de madeira e folha-de-flandres, pintados de amarelo. Em uma das quatro paredes, cobertas de alto a baixo de veludo preto e orladas de galões de ouro destacava-se um altar, ainda não aceso, todo estrelado de lantejoulas; carregado de adornos, com uma toalha de rendas no centro, sobre a qual pousavam dois castiçais de latão, pintalgados pelas moscas, tendo entre eles um crucifixo do mesmo metal, extremamente azinhavrado. Defronte estava a essa, enfeitada de acordo com o resto, à espera do caixão, que aquelas horas se reparava em casa do Manuel Serigueiro.
Empoleirado numa escada e de martelo em punho um homem, em mangas de camisa, pregava sobre as portas bambinelas bordadas.
— A que horas e o enterro? perguntou-lhe Raimundo.
— Às quatro e meia, disse o armador, sem voltar o rosto.
Da varanda vinha um murmúrio de vozes. Raimundo seguiu para lá.
Varanda larga e alta caiada, toda aberta para o quintal; telha vã, mostrando os caibros irregulares, donde pendiam melancólicas teias de aranha. Num dos cantos um banco de pau roxo, muito escuro, sustentando, em buracos redondos, dois grandes potes bojudos de barro vermelho; sobre o parapeito da varanda, uma fila de quartinhas também de barro, esfriavam água. Aberto na parede um imenso armário tosco, e logo ao pé um alçapão no assoalho, resguardado por uma grade, com a cancela despejada sobre uma escada tenebrosa.
Encostado à grade - um sujeito gordo, sem bigode, de óculos e barba debaixo do queixo, dizia a outro do mesmo feitio, batendo com o pé nas largas tábuas do chão.
Hoje ninguém mais pilha deste madeiramento! Repare! E tudo pau-d'arco, pau-santo, pau-cetim, bacuri, jacarandá e pequi! Madeiras que valem o ferro e que nem o machado pode com elas!
Em volta de uma mesa, dez homens, a título de fazer quarto à defunta, jogavam cartas, conversando em voz discreta repetindo xícaras de café e cálices de conhaque, entre pilhérias segredadas, risos abafados e o fumo espesso dos cigarros.
Quando Raimundo entrou, confidenciava um deles ao vizinho:
— Já não sou homem para estas coisas!... Não posso perder uma noite!... Por mais que beba café, sinto sono!... Porém não podia deixar de vir, era uma ocasião de encontrar-me com a pequena... Não tenho entrada na casa dela...
E bocejava.
— Conhecias esta velha que morreu? interrogou-lhe o outro.
— Não. Creio que a encontrei uma vez em casa do Manuel Pescada... Já estive a olhá-la — é horrível!
— Pois aqui onde me vês, estou furioso! O patrão mandou-me para cá, mas com poucas arribo! Tenho um pagode no Cutim e não o perco!
— Também porque a velha não escolheu melhor dia pra morrer!... — Logo na véspera de São João! Que espiga!
E bocejavam ambos.
— Quem é este tipo? perguntou um dos jogadores, vendo entrar Raimundo. Corte com o três de espadas!
— É um tal Raimundo... um sujeito que o Pescada tem em casa por compaixão.
— O que faz ele? — Dama!
— Diz que é doutor. — É meu!
— Não parece mau rapaz...
— Fia-te!
— Já te pregou alguma hein? conta-nos isso!
— Não te digo mais nada... Fia-te na Virgem e não corras!...
Fizeram uma pausa, em que se ouvia atirar cartas à mesa, com uma pancada de dedos no tapete.
— Mas do que vive ele? perguntou o curioso que se informava de Raimundo.
— Venha o ás!
— Ora do que vive!... Você não tem copas?... Pergunte a toda essa gente sem emprego, de quem oficialmente se de “vive de agências” e ficarás sabendo.
— Ganhei!
— Mas o que é ele do Manuel?
— Diz que primo... respondeu o outro, baralhando as cartas.
—Ah!...
— Dê cartas.
Raimundo cumprimentou-os e perguntou pela família da defunta.
Estava fazendo quarto. Que entrasse por ali, responderam-lhe, indicando uma porta.
Logo que o rapaz deu as costas, o maledicente levantou o braço e fez-lhe uma ação feia.
— Gosto muito destes tipos, acrescentou, então em voz alta, para o grupo inteiro, depois de um silêncio, todos eles são uma coisa lá por fora “Porque eu fiz! e porque eu aconteci! Porque isto é uma aldeia! É um chiqueiro!” E no entanto metem-se no chiqueiro e daqui não saem!...
— Meu amigo, não há Maranhão como este!...
— Mas dizem que este cabra tem alguma coisa... arriscou um terceiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.