Por Aluísio Azevedo (1882)
Entrava-se nela por uma abertura natural, indicada pela própria folhagem, que nesse ponto se tornava mais sombria. Mal porém transposta essa passagem, afastando com ambas as mãos os ríspidos galhos que a defendiam achava-se a gente num lugar inteiramente contrário ao que se acabava de deixar. Era uma estreita galeria em pedregal escuro e úmido, feita de penhascos acumulados uns sobre os outros, formando medonhas cavernas, onde apenas de espaço a espaço escorria algum trêmulo fio de luz.
Os negros pedregulhos, como sustidos por uma força estranha, empinavamse muitos metros fora da sua base, serpenteando por entre eles um corredor irregular e trevoso. Augusto seguiu por aí e os outros dois o acompanharam. À proporção que avançavam, ia o ar se tornando mais frio e o silêncio mais intenso. De todos os rumores de fora só chegava lá dentro um vozear confuso, que esfuziava de rocha em rocha. Olímpia parecia encantada pelo passeio e apertava no seu o braço de Gregório.
Depois de andarem um quarto de hora, deram a um lugar mais amplo e descoberto. Via-se então o céu por entre o rendilhado da floresta, que lá em cima crescia zombando dos rochedos. Algumas árvores se debruçavam no abismo e estendiam pela aridez da pedra seus retorcidos braços de gigante.
Mais alguns passos e começaram a ouvir o murmúrio de uma pequena cascata que corria lá embaixo. Era preciso agora segurar-se a gente com mais cuidado, porque o limo dificultava o caminho transformado em ladeira. A pedra aparecia rachada em vários pontos, cujas fendas só se podiam galgar com um salto.
Olímpia principiava a cansar de novo; as fendas reproduziam-se mais amiudadamente. Vão agora rareando as pedras; vão avultando as fisgas d’água. Terminou afinal a descida; já se não está sobre uma rocha, passeia-se num lago, guarnecido de ilhotas negras, que surgem aqui e ali, como para facilitar a viagem.
É este o ponto mais bonito da gruta. A vegetação surge de cima com mais abundância; os despenhadeiros são enfeitados com as trepadeiras e parasitas, que sobem e descem por eles, numa variedade riquíssima de flores. A água corre placidamente debaixo de nossos pés; ouvem-se cantar os pássaros e sentem-se os sopros embalsamados da floresta. De um lado principia de novo o campo, vê-se a terra e ouve-se o marulhar das folhas; do outro se agrupam penhascos, por entre os quais já não é possível transitar sem risco de vida.
Gregório deu a mão a Olímpia, fê-la subir a uma das pedras que se erguiam defronte deles e mostrou-lhe a cascata. A rocha era fendida em toda a sua extensão, formando magnífico efeito com os pedregulhos que se entremetiam por ela.
Augusto galgou uma das arestas do rochedo, disse aos companheiros que o esperassem um instante, enquanto ia ele observar se havia saída pelo outro lado da gruta. Olímpia e Gregório opuseram-se; achavam muito arriscada semelhante tentativa: a rocha era lisa de todo e escorregadia. Mas antes que os dois tivessem tempo de despersuadi-lo disso, já o temerário havia atingido uma das pedras que ficavam entaladas na fenda, e procurava, equilibrando-se, alcançar uma outra adiante. Afinal conseguiu e desapareceu pelo lado contrário do penedo.
Os companheiros ficaram sobressaltados. Gregório fez Olímpia assentar-se; procurou distraí-la conversando e ofereceu-lhe uns cajus, que nessa ocasião acabava de colher. Mas Augusto não reaparecia e a senhora tornava-se cada vez mais inquieta.
Afinal ouviu-se-lhe a voz, chamando pelos outros. A voz saía justamente da parte mais baixa da rocha, no lugar em que principiava a enorme fenda.
— Onde estás tu? perguntou-lhe Gregório, aproximando-se o mais que pôde do lugar donde vinham os gritos de Augusto.
— Estou aqui embaixo! Só há uma fenda, por onde nem um gato pode passar!
— E por que não voltas por onde foste?!
— Impossível! Vim deixando-me escorregar e não consigo subir! Já tentei várias vezes!
— E agora?!
— Agora é seguirem vocês por aí, que eu os vou encontrar mais adiante!
— Mas eu não conheço estes caminhos!...
— Não há que errar, disse Augusto, procurando meter a cabeça na fenda da rocha; tomas esse caminho, onde estão as palmeiras, e vais sempre seguindo à esquerda, até chegares à pedreira. Vão. Eu não posso ficar aqui por mais tempo, tenho água até aos joelhos! É verdade! não esqueças de levar o saco que trazia eu a tiracolo e que tirei para passar a rocha. Até logo!
— Até logo, repetiu Gregório.
— Sempre à esquerda! ainda recomendou o outro.
Olímpia não deu uma palavra durante o diálogo dos dois rapazes, mas deixou pela fisionomia bem patente o seu sobressalto.
— Nós o encontraremos ali mais adiante... disse Gregório, dando-lhe o braço. Vamos.
E puseram-se a andar silenciosamente. O caminho por onde voltavam era encantador, mas muito agreste. Olímpia por duas vezes queixou-se de que os espinhos lhe feriam o rosto. Gregório contentou-se em lembrar-lhe a coragem com que ela empreendera o passeio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.