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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— É um homem de peso... dizia. — Não tem fulgurações de talento, mas sobra-lhe o tino! Homem de gabinete!

O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu então circularem ao redor de si os mais lisonjeiros comentários a respeito de qualidades, que ele nunca desconfiara que possuía. Viu atribuírem-lhe competência, das quais ele podia jurar que não dispunha; viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande tática política, dos quais só chegara ao conhecimento pelas notícias do "Diário Oficial".

Mas, em compensação, os jornais ilustrados, os órgãos republicanos e algumas folhas diárias surgiam pejados de sátiras, de pilhérias e de caricaturas contra ele, a mulher e o monarca.

Deram-lhe alcunhas ridículas, inventaram-lhe biografias vergonhosos, crivaram-no de triolets insultuosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz do Brasil; que ela, se não reinava sobre a nação, reinava sobre o monarca; que Sua Majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse a viscondessinha de Itassu, e que esta, abusando da posição, pintava o diabo com o pobre país, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com que armava e desfazia os seus penteados e... os do marido.

Borges não sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto perder a cabeça quando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a própria fraqueza, atirava sua indignação sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia se prendendo cada vez mais.

— Não dês a menor importância! acudiu o Guterres. — Deixa ladrar a inveja! — Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?...

— É uma questão de hábito, filho! Bem se vê que ainda não estás calejado nesta coisa! Pois querias fazer posição sem ouvir descomposturas?... Serias aqui o primeiro! — Quem tem mérito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais já não disserem nada a teu respeito, hás de sentir até a falta desses mesmos desaforos que hoje te mortificam!

Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia se enterrando progressivamente no azedume e no tédio; deixava-se tomar de um desespero irritativo e constante assanhava-se já por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada, tinha palavras duras e gestos desabridos3 até com o próprio Imperador.

O Imperador!...

Pobre homem! bem longe estava ele de merecer as acusações que lhe faziam a respeito da afilhada!

Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser; mas é que o diabrete arranjava as coisas de tal jeito; que o bom monarca não conseguia ir além de seus desejos, se é que os tinha.

Por mais esforços que empregasse, se os empregava, a viscondessinha fugia-lhe por entre os dedos, com desculpas banais, como por exemplo a da circunstância de ser sua afilhada, deixando o coração do soberano ainda mais abrasado e ansioso, o que é possível, porque desgraçadamente os imperadores são feitos da mesma carne fraca e tilitante de que se formam as outras criaturas suscetíveis ao amor.

Por esse tempo, era o Borges indigitado para exercer fora do país um importante cargo diplomático, que acabava de vagar.

— Não é que este homem embirrou deveras comigo?!'.. exclamou ele, quando lhe chegou aos ouvidos tal notícia.. — Agora quer me fazer ministro plenipotenciário lá por onde o diabo perdeu o cachimbo! Ora, os meus pecados!

Filomena preferia ficar na corte, mas declarou logo que, se o marido aceitasse o cargo, ela o acompanharia, fosse lá para onde fosse.

Cassou-se imediatamente a nomeação do visconde, e, à noite, quando este teve ocasião de ver o amo, notou-lhe na fisionomia um certo ar de má vontade. Lá se ia por água abaixo o prestígio do Borges e mais da mulher.

CAPÍTULO XXII

DISSOLVEM-SE AS ÚLTIMAS ILUSÕES

Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandecente de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.

Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! — por uma semana, por um dia ao menos!

— Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante — teu marido já não pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto, estou seco, sem uma pitada de miolo! — mais uma semana — estouro! levo o diabo!

(continua...)

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