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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Em cima o Campos tomou o chapéu e o guarda-chuva, mas, antes de sair, consultou a opinião do Coqueiro e de Mme. Brizard sobre o que melhor convinha fazer a respeito do varioloso. “Talvez fosse mais acertado levá-lo para uma boa casa de saúde!...— Eles que se não constrangessem: se era inconveniente ficar ali o rapaz, falassem com franqueza, porque tudo se podia arranjar perfeitamente.

Mas os locandeiros protestaram logo, com energia: — Longe de ficarem constrangidos, tinham muito gosto em ser úteis ao Dr. Amâncio. — Que o já estimavam tanto, que não teriam ânimo de o desamparar, justamente quando o pobre moço, longe da família, mais precisava de cuidados!

– Verdade é que as bexigas não são das más...considerou o negociante, alisando o pêlo de seu chapéu alto. — Mas os outros hóspedes talvez não pensem como a senhora e seu marido...E daí, quem sabe?...queiram deixar a casa e...

Mme. Brizard declarou que por esse lado estava sossegada. “Os bons hóspedes não desertariam por tão pouco, e quanto aos maus, se fossem não fariam falta.”

Campos agradeceu pelo recomendado aquela boa vontade; tornou a dizer que não poupassem despesas com a moléstia e, quando porventura houvesse alguma dívida ou alguma dificuldade, era mandar imediatamente um recadinho à Rua Direita, que ele lá estava sempre às ordens.

E ainda voltou ao quarto do rapaz para lhe rogar mis uma vez que não tivesse receio de importuná-lo em qualquer ocasião e, outrossim, para saber se, por enquanto, ele não precisava de mais alguma coisa.

Amâncio desejava unicamente que o amigo procurasse por onde andava o Sabino, que agora lhe fazia falta; e, caso o encontrasse, tivesse a bondade de remeter-lho; pois seria um grande favor.

Veio à questão o quanto madraceavam os escravos ultimamente. Mme. Brizard jurou que não havia melhor vida do que a deles; disse que Amâncio fizera mal; em consentir que um negro de sua propriedade andasse por aí tanto tempo, sem lhe prestar contas; quando, alugado, lhe podia dar de rendimento pelo menos quarenta mil-réis mensais. E, de sua parte recomendou de Campos que fizesse diligências para descobrir o tratante e o deixasse ali, que ela mostraria se punha ou não a bom caminho.

O negociante retirou-se afinal, entre novos protestos e novos oferecimentos.

Mme. Brizard, o Coqueiro e Amelinha não abandonaram o quarto do doente até mais de meia-noite; ora um, ora outro, acompanhavam-no sempre. Lúcia também aparecia de quando em quando; ao passo que o marido, sem jamais acordar completamente, nem dera pelo reboliço em que ia a casa.

Por toda a parte sentia-se já o cheiro de alfazema queimada. O esquisitão do

n.° 4, muito comprido no seu poncho de brim pardo, que lhe batia desairosamente nas tíbias mal compostas, espaceava no corredor, cantarolando, em voz soturna o De Profundis .

Olha que agouro! Resmungou a mulher do Paula Mendes ao vê-lo passar e, já encolerizada pela demora do marido, fechou a porta do quarto com um pontapé. — Logo aquela noite é que o diabo do homem entendia de se demorara mais tempo na rua! Raios o partissem, diabo!

O Melinho, a pérola do n.° 9 , também aparecera; e o Piloto, a saber ,ainda na porta da rua, que havia um bexigoso no segundo andar, fez uma careta, benzeu-se comicamente, desgalgou pelo mesmo caminho que trazia, afetando trejeitos exagerado de medo. O guarda-livros é que bem pouco se incomodou com a notícia, tinha lá o seu gabinete ao lado da sala de visitas, e aí com certeza não chegariam os miasmas.

Estava em cima o Coqueiro a discutir com a família sobre quem devia acompanhar o enfermo durante o resto das noite, quando entro o Paula Mendes, estranhamente alegre, a cantar em voz alta. O dono da casa correu logo ao seu encontro e lhe pediu que não fizesse bulha. — O hóspede do n.° 6 estava de cama! Mendes respondeu com descostumada grosseria, arrastando a voz. Catarina ao vêlo naquele estado, fechou bruscamente a porta do quarto, que nesse mesmo instante havia aberto, e gritou-lhe de dentro “Que fosse cozinhar para longe a bebedeira! Que voltasse para onde se tinha emborrachado! Era só também o que faltava! — que, além de tudo, tivesse de aturar bêbados! Estavam bem servidos!”

E, todos, com grande espanto , se convenceram de que efetivamente o Paula Mendes vinha ébrio, logo que o viram principiar a bater, como um possesso, na porta do quarto, berrando pela mulher, sem se poder agüentar nas pernas.

— Pois senhores, disse Mme. Brizard, que acudira com o barulho, — estou pasma! Desde que o rabequista mora aqui é a primeira vez que o vejo assim!...

— Naturalmente isto foi coisa que lhe fizeram... opinou Coqueiro. — Ele, coitado, é até homem de bons costumes!...

Todos concordaram nesse ponto, e o hoteleiro, uma vez capacitado de que a peste da Catarina não abria a porta ao marido, carregou com este para o quarto que o Lambertosa acabava de despejar.

— Diabo! Resmungou, deixando-o cair sobre a cama. — Hóspedes que só dão de lucro estas maçadas!

(continua...)

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