Por Bernardo Guimarães (1883)
O vivo rubor que lhe assomára ás faces, logo que deo com os olhos no mancebo, nunca mais se apagou, apenas desmaiou um pouco, depois que elle se retirou, e assim se conscrvou até o dia seguinte. Erão as rosas do amor que reflorião de novo ao bafejo da esperança naquella candido e encantador semelhante. Os sorrisos lhe adejavão espontaneos pelos [abios, e nos olhos lhe scintillava um fulgor sereno e bonançoso como o de uma manhã de abril. Nesse dia Conrado não vio mais no rosto de sua filha nem a mais leve sombra de tristeza.
Depois de ter notado com particular attenção aquelles symptomas, Conrado procurando encobrir sua intenção e sem muita insistencia fez á sua filha algumas perguntas a respeito de Carlos.
Então já conhecias este moço que te apresentei hoje, — perguntou, affectando indifferença.
Já, sim senhor; era nosso vizinho na rua do Tabatinguéra, respondeo Rozaura bastantemente enleiada.
— E que tal te parece elle?
— Me parece muito bom moço.
— Qual bom moço ! é um esturdio como todos os seus companheiros... basta ser estudante.
—Oh! meu pae ! . . . não diga isso, — exclamou
com toda a vivacidade e com toda a ingenuidade a menina. É porque meu pae não o conhece. Este não é como os outros; é muito bem creado, e tem tão bons modos...
— São apparencias, minha filha; não acredites muito nesses sujeitinhos. Não é de hoje que os conheço. Esse Carlos mesmo, si não é um maluco ou um devasso como os outros, talvez não passe de um refinado hypocrita.
— Ah! meu pae! será possivel! — murmurou Rozaura com voz sentida, e tornou-se triste e amuada...
Conrado sorrio-se; tinha sorprehendido no fundo da alma o segredo da filha.
— Não te aflijas, Rozaura; eu tambem conheço Carlos, e até o vi pequenino em Minas na fazenda do pae, que é muito meu conhecido e meu amigo.
— Ah! devéras ! — replicou Rozaura reani- mando—se. — Quanto estimo isso!
Conrado não precisava saber mais para ficar inteirado da natureza dos sentimentos de sua filha para com o seu correspondido. Só lhe faltava agora sondar o coração de Carlos, para o que esperou com impaciencia o dia seguinte.
Quando Carlos sahio da casa de Conrado, e achou-se no meio da rua, ia tão aturdido com o que lhe acabava de acontecer, que parou perplexo sem saber para onde dirigir seus passos. Nesta hesitação ficou parado alguns momentos ; mas depois, levantando os olhos para o sobrado, vio Conrado e Rozaura, que da sacada o contemplavão com ar risonho; envergonhou-se, fez um ligeiro cumprimento, e como quem despertava de um sonho dirigio-se resolutamente para casa de Frederico, com quem morava desde que este o arrancára da rua do Tabatinguéra. Caminhava porém por tal sorte distrahido, tal era a preoccupação e enlevo, em que ia embebido, que não via onde pisava, abalroava um e outro transeunte, e não correspondia aos comprimentos dos collegas e conhecidos, com quem ia encontrando. Levava a alma como que fechada dentro de uma nuvem cor de rosa, cheia de visões e mirao•ens encantadoras, que não lhe permittião ver nada do mundo exterior, emquanto o corpo se movia automaticamente procurando o rumo de casa. O achado que acabava de fazer, sem o procurar, sem o saber, o atordoava. Encontrar Rozaura que elle julgava para sempre perdida, encontrai-a de um dia para outro, livre, rica, em uma posição brilhante, transformada de escrava que era em uma distincta donzella filha de um opulento e amavel cavalheiro, o qual além de tudo era o seu correspondente, o amigo de sua familia, era com effeito um acontecimento que tinha um não sei que de prodigioso; era um sonho das mil e uma noites.
Todavia o azul do horizonte, que lhe sorviã, não era ainda de todo puro e calmo; pairava sobre elle uma nuvemsinha escura, que lhe turbava a serenidade. Terrivel suspeita lavrava por instantes no espirito de Carlos. Apezar de estar bem convencido da honradez e sinceridade do caracter de Conrado, não podia conformar-se com a idéa de que Rozaura fosse sua filha. Conrado era rico, podia satisfazer todos os seus caprichos. Vio Rozaura, encantou-se de sua belleza, não poupou esforços nem dinheiro para obtel-a, comprou-a, libertou-a, levou-a para a casa, e não querendo casar-se com uma liberta, fel-a, ou pretende fazel-a sua amazia. Para cohonestar aos olhos do publico sua convivencia com a gentil menina, procura fazer crer que é sua filha, para o que pouco lhe custará inventar qualquer historia. Carlos tambem não deixára de perceber a alteração, que se manifestápa na physionomia de Conrado ao saber que elle e Rozaura já se conhecido, e esse facto servia para confirmal-o em suas sombrias apprehensões.
Bem se vé que erão apprehensões chimericas e diçparatadas de um espirito enfermo, que tendo surgido como por encanto dos abysmos tenebrosos do infortunio e do desalento, á custo póde abrir os olhos á luz da esperanza e da ventura, tendo ainda diante delles as cataratas da desconfiança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.