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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Pois bem. Por esse tempo achava-me eu no convento de Iguarassú, donde, por ordem do bispo, parti para Tres-ladeiras, a fim de prestar os socorros espirituais à pobreza, que estava aí morrendo no maior desamparo e impenitência. Uma noite de muita chuva, tenho ainda na memória bem frescos todos os passos, especialmente os primeiros do meu erro, quando eu voltava de um sitio aonde tinha ido ouvir de confissão um moribundo, senti-me de repente assaltado de tremedeiras tão fortes que não sei como não vim do cavalo em terra; estava pesteado. Felizmente, alguns passos adiante, havia uma casa na beira do caminho, e dentro dela vi lume aceso. Pedi agasalho, o qual não se fez esperar. As moradoras, que me conheciam de ver-me passar todo dia pela porta, acolheram-me com as maiores atenções. Era uma mãe com sua filha, ambas viuvas. Não só durante o período agudo da enfermidade, mas durante a convalescença, que foi longa, nunca resfriou o zelo delas. A filha era nova e mui gentil. Enfim, Marcelina, quando voltei um mês depois à minha casa, levava comigo dois inimigos cruéis, uma paixão e um remorso. O primeiro destes inimigos pude vencer, pretextando cansaço e fraqueza, e voltando ao convento; o segundo porém nunca mais saiu de minha consciência; há de baixar comigo à sepultura. Só Deus sabe, Marcelina, se esse crime não chamou sobre minh’alma a condenação eterna. - Deus tem sempre o perdão para os bons.

E eu fui bom? Fui pusilânime e réprobo. Tempos depois, dentro de minha cela, recebi uma carta. Aquela que me fizera cair e que eu arrastara em minha queda, tinha sido mãe e pedia-me que olhasse por ela e pelo filho. A velha tinha falecido, deixando a filha só no mundo, com o testemunho vivo do meu crime. Nos primeiros tempos olhei de longe pela infeliz e pelo fruto do nosso amor fatal; mas sabendo depois que ela se havia desmandado em sua vida, faltou-me generosidade para continuar-lhe os meus auxílios. Todavia, eu não perdia de vista esses entes com os quais o destino me prendera por inquebrantáveis cadeias. Quando ela se mudava de uma terra para outra, como muitas vezes aconteceu, eu achava sempre no novo lugar pessoa de minha confiança a quem recomendar a criança que, rendendo a homenagem devida à decência, eu dizia ser ligada comigo por parentesco remoto. Essa pessoa era o vigário ou outro qualquer sacerdote. Um dia recebo uma carta em que o vigário da freguesia, onde a mulher e o menino estavam ultimamente residindo, me informava da morte da mãe e do abandono do filho. A carta fora retardada, de sorte que quando me chegou às mãos, mais de um ano tinha decorrido depois de sua data. Sendo-me então mais fácil tomar o menino à minha conta, não só pelo falecimento daquela que a ele tinha melhor direito do que eu, mas pela minha secularização, corro ao ponto em que o devia encontrar, impaciente por ver e conhecer aquele que na forma de espinho eu trazia incessantemente na consciência. Oh que amargas desilusões não foram as minhas, quando aí cheguei! O menino tinha no lugar as mais tristes tradições que se podem imaginar, e, para cúmulo do meu desgosto, mão desconhecida o tirará violentamente, posto que com satisfação de todos os moradores.

- Meu Deus! Que está dizendo, seu padre? inquiriu Marcelina, abalada e confusa destas noticias, que caiam em seu espirito na forma de raios de luz.

- Tu sabes o resto, Marcelina.

- Eu, eu?

- Sim. Não te lembras do que fiz quando, de volta do engenho, entrei em tua casa?

- Já me não lembro, seu padre.

- Pois lembro-me eu. chamei Lourenço para junto de mim, meti-o entre as minhas pernas e abracei-o . Ah! era a primeira vez que eu via meu filho. Seu filho! Pois Lourenço é seu filho, seu padre! exclamou a cabocla, fazendo gestos e meneios, que acusavam intenso e súbito prazer. Oh! meu Deus, como eu sou feliz!

As lagrimas saltavam dos olhos dela, mas não eram desacompanhadas; o padre também chorava.

- Feliz foi Lourenço, feliz fui eu, disse ele. se não foras tu, alma privilegiada, mãe perfeita, honra das mulheres, brilho do lar, se não foras tu, o que seria desse menino que vivia como animal imundo na povoação condenada? Mas... estou ouvindo o rumor de passos. É talvez Lourenço que se aproxima. Mudemos de assunto. Não te esqueças, Marcelina, do que me prometeste. Não reveles a ninguém a minha fealdade moral. Ninguém saberá o que vosmecê acaba de contar, menos Francisco. Francisco? Tens razão. A Francisco, primeiro instrumento da Providencia para a mudança radical do destino de Lourenço, podes e deves referir toda esta historia. Agora uma ultima palavra. Retiro-me deste lugar sem saber para onde vou. Se eu vier a morrer antes de terminada esta guerra, que me aparta de vocês contra a minha vontade, logo que tiveres noticia, faze Lourenço senhor do seu próprio segredo e entrega-lhe este papel, que ele deve apresentar às justiças. Não é meu testamento, é a doação que lhe faço, de meu sitio e de todas as terras que me pertencem.

(continua...)

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