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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Os franciscanos deram-se por satisfeitos: levantaram uma capela e um hospício provisório junto do monte, e para aí efetuaram a sua quarta mudança. Dispuseram a obra do seu convento e igreja anexa, lançaram a primeira pedra desses edifícios no dia 4 de junho de 1608, e concluídas as principais acomodações, mudaram-se pela quinta, e enfim, pela última vez, para a sua nova casa em 7 de fevereiro de 1615, e no dia seguinte celebraram a primeira missa solene na sua igreja, aliás, ainda incompleta, e cuja Capela-Mor só ficou pronta em dezembro do ano se guinte.

Contei-vos em poucas palavras uma longa história de dez anos. Pode ser que ela não vos inspirasse interesse por culpa e defeito do narrador; mas, na qualidade de vosso cicerone obrigado, precisava preparar-vos com estas idéias preliminares para levar-vos a visitar o convento de S. Antônio.

Já vedes que temos, como nos dois precedentes passeios, uma encosta que subir. Esta, porém, é mais breve e mais suave, e lá em cima, na casa da pobreza, espera-nos um lauto banquete para matar a fome de nossa curiosidade, uma opulenta mina de belas recordações e de tradições mais ou menos admissíveis. Todas, porém, interessantes, que nos cumpre explorar com cuidado e zelo.

Aquele convento de S. Antônio deve-nos ser simpático. À parte as considerações religiosas, a casa onde floresceram Rodovalho, S. Carlos, Sampaio e Mont’Alverne não pode deixar de ser muito presada ao Brasil.

Em uma das celas desse mosteiro foi concebido e escrito um grande poema, em outra ajudou-se a preparar a obra monumental da independência do Brasil. A poesia e o patriotismo não devem merecer menos por se apresentarem vestidos com o burel do franciscano.

A ordem de S. Francisco de Assis está entre nós em completa decadência. Os conventos despovoados de frades vão-se transformando em tristes solidões. Os últimos esforços da dedicação, do empenho desvelado e da constância admirável de alguns religiosos capuchos que, chamados ao Governo desta província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, conseguiram banir repugnantes abusos e uma deplorável situação moral que, em época ainda não muito afastada, se observaram, podem apenas adiar a ruína inevitável e preparar com a regeneração da moralidade de seus conventos um nobre sudário e a mortalha gloriosa para o cadáver da congregação dos capuchos no Brasil.

O quadro da adversidade desperta antes interesse do que indiferença por aqueles que a experimentam. Pelo esplendor do passado, portanto, e ainda pela sua má fortuna da atualidade, o convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro deve chamar a nossa atenção e tornar-se objeto de estudo desvelado em alguns dos nossos passeios.

Subamos, pois, a ladeira de S. Antônio. Aí nos fica à mão direi ta essa pesada mole de granito que se chama o chafariz da Carioca, e que há de ainda convidar-nos a um passeio especial. Vamos subindo e deixemos agora à mão esquerda o que o padre Luís Gonçalves dos Santos designou com o nome de “caixa com forma de torre”, que recebe a água que vai ter ao chafariz.

Subamos sempre, depois de ver outra vez ao lado direito o elegante portão de ferro em que vem terminar a excelente escada de pedra que substituiu a ladeira da ordem terceira dos franciscanos, demos alguns passos mais, e volvendo para esse mesmo lado, subamos a escada também de pedra que nos conduz ao adro do convento e das igrejas dos frades e dos terceiros de S. Francisco.

A posição é magnífica. O convento domina uma parte da baía e grande parte da cidade. Em frente, apenas o monte do Castelo se levanta como uma barreira; mas, em vez de amesquinhar-lhe o panorama aumenta ainda talvez a beleza deste.

O aspecto interior da igreja do convento não é imponente. Tendo, porém, ao lado esquerdo a dos terceiros e ao direito a face principal do mosteiro, representa este conjunto um edifício de vastas proporções, e notável ao menos pela sua grandeza.

Hoje nada temos que ver com o domínio dos terceiros franciscanos. Entremos, pois, e já, na igreja dos frades capuchos.

O templo é um pouco sombrio. Mas, quanto a mim, não perde por isso a majestade da casa do Senhor. Todas as portadas são de mármore, e as portas e o teto de jacarandá. Não sei quem teve o mau gosto de mandar pintar com tinta vermelha aquelas portas, roubando-lhes assim a beleza natural e severa da preciosa madeira; mas o atual provincial fez restituí-las ao seu antigo estado, e o jacarandá ostenta outra vez a sua grave formosura.

(continua...)

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