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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Uma das moças mordêra-se de inveja por que não pudera agradar tanto quanto esperava, executando uma aria já cem vezes cantada no theatro italiano.

Depois de longo conversar, a invejosa, cançada de ouvir elogios ao romance de Juliana, disse sorrindo ironicamente :

— Sei um romance muito mais bonito do que esse que cantou D. Juliana.

— E qual é ?...

— Não tem nome ainda; posso porém repetir uma das tres estrophes de que consta a sua poesia.

— É novo ?...

— Para quasi todos, mas talvez que D. Juliana já o conheça, pois que é tão apaixonada de romances.

— Conta-o.

E a invejosa cantou baixinho :

Esta lua tão formosa,

Esta noite deleitosa,

Este céo de lactea cor,

Este silencio profundo.

Este repouso do mundo,

É tudo encanto de amor.

Um gemido pungente interrompeu o canto da invejosa. Juliana acabava de desmaiar.

XXV.

A miseria victima de um infame seductor não poude combater por mais tempo contra a sociedade que a repellia e que no emtanto continuava a abrir o seio ao seu algoz.

Voltando daquelle ultimo baile em que desmaiara ouvindo um canto injurioso, Juliana adoeceu gravemente.

Durante oito dias luctou com a morte, venceu-a emíim e talvez a pezar seu ; ficou-lhe porém uma profunda e acerba melancolia, contra a qual não houve recurso que aproveitasse. Os medicos aconselharão distracções. Juliana não se prestou mais a voltar aos bailes e ás reuniões, e apenas condescendeu em passeiar fora da cidade com sua mãi e Fábio.

Os passeios repetião-se inutilmente e sem o menor proveito : a melancolia de Juliana era invencivel, e fazia tremer a Cândida e ao seu sempre fiel e extremoso amante. Um dia Fábio chegou á casa de Cândida ainda mais commovido do que nos anteriores.

— Que tens, Fábio ?... ha alguma novidade ?... perguntou Cândida.

— Sim, mas é preciso não deixal-a perceber a Juliana.

— Então...

— Jorge de Almeiada casa-se amanhã.

— Silencio, Fábio! pelo amor de Deus silencio!

Dahi a pouco partião em um carro Fábio, Cândida e Juliana, para um dos bellos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, e apeando-se em um excellente hotel, que não é necessario nomear, seguirão a pé passeiando durante uma hora, no fim da qual voltarão para jantar.

Fábio e as duas senhoras acabavão apenas de entrar para a sala que havião tomado, quando em outra que a essa íicava contígua, soarão as vozes alegres e ruidosas de muitos mancebos, e no meio dellas, bem distincta entre todas, a de Jorge de Almeida.

Um caixeiro do hotel, que veio receber as ordens de Fábio, descobrio o segredo que se occultava a Juliana, declarando que Jorge de Almeida vinha dar a alguns amigos o seu ultimo jantar de moço solteiro, e despedir-se ruidosamente de sua vida de extravagante.

Juliana pareceu ouvir aquella noticia sem abalo nem commoção ; pedio porém que se trancasse a porta da sala.

O jantar de Jorge de Almeida transformou-se bem depressa em uma bacchanal, a que só faltavão, para ser mais completa, essas mulheres loucas e perdidas cujas relações vergonhosas poucos homens se atrevem a confessar.

Os vinhos exaltavão os convivas, que suppunhão fallar do amor fallando de devassidão e de crimes.

Juliana tremia ouvindo confidencias feitas em gritos e inspiradas pelo vinho.

E no meio daquelle ruido e daquellas fallas immoraes,o nome de Juliana foi pronunciado ao som de risadas.

Acabavão de contar Juliana no numero das victimas de Jorge de Almeida.

Fábio levantou-se inflammadode colera, mas sentio-se preso nos braços de Gandida e de Juliana, que choravão desesperadamente.

Um dos exaltados convivas interpellou a Jorge de Almeida a respeito de Juliana.

A interpellação era uma infâmia.

Jorge, em vez de responder logo, soltou uma gargalhada indecente.

Os convivas instarão com decompassados gritos.

Jorge de Almeida obedeceu, fallou, e o que disse foi ainda mais infame.

Fábio fez um esforço violento, e deixando Juliana cahida semi-morta nos braços de sua mãi, abrio a porta, penetrou na sala do banquete, e avançando para Jorge de Almeida exclamou levantando o braço com evidente ameaça :

— Mentes, miseravel !...

Jorge de Almeida empunhou uma faca, e ia bradando :

— Repito...

Mas não poude acabar porque Fábio irritado imprimio-lhe no face o maior insulto que pôde um homem receber.

Jorge cambaleou e cahio atordoado no assoalho.

Vinte adversários levantárão-se para vingar a offensa recebida por Jorge de Almeida, mas ao mesmo tempo, a sala encheu-se de gente que acudio ao estrepito,e que conseguio impedir uma lucta desigual e terrivel.

XXVI.

O esquecimento de um grande insulto e de uma injuria vehemente pôde ser aconselhado por uma santa virtude ensinada por Jesus Christo, e então é digno da admiração dos homens, porque aquelle que sabe tanto perdoar se eleva pela sua humildade a uma altura que o aproxima do céo.

Mas também muitas vezes esse esquecimento é apenas a expressão do aviltamento e da miseria moral do homem corrompido pelos vicios; porque a corrupção mata o pundonor e o brio.

(continua...)

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